Um estudo de fase 3 apresentado na reunião da Sociedade Europeia de Oncologia Médica em Madrid revelou que uma combinação de medicamentos administrados antes e depois da cirurgia reduz significativamente a mortalidade em casos de câncer de bexiga músculo‑invasivo. Os resultados foram divulgados em maio de 2024, durante o congresso que reuniu especialistas de todo o mundo. A pesquisa, denominada VOLGA, avaliou 695 pacientes que não podiam receber a quimioterapia padrão à base de cisplatina.
Entendendo o câncer de bexiga em estágio avançado
O tumor músculo‑invasivo afeta a camada profunda da bexiga, exigindo, na maioria das situações, a remoção total do órgão – a cistectomia radical. Mesmo após a cirurgia, o risco de recidiva permanece elevado, sobretudo em pacientes que não toleram a quimioterapia convencional.
Esses pacientes costumam ter comorbidades que impedem o uso de cisplatina, o que limita as opções terapêuticas e eleva a necessidade de estratégias alternativas. A imunoterapia tem surgido como uma alternativa promissora, ao estimular o próprio sistema imunológico a reconhecer e destruir as células malignas.
Metodologia do estudo VOLVA
O ensaio foi estruturado em três braços, distribuindo aleatoriamente os participantes em grupos que receberam diferentes combinações de fármacos ou apenas a cirurgia padrão. O objetivo principal foi comparar a sobrevida livre de eventos – que inclui recorrência, progressão ou morte – entre os grupos.
Antes da cirurgia, os pacientes do braço experimental receberam três ciclos de durvalumabe associado ao enfortumabe vedotina. Após a cistectomia, continuaram apenas com durvalumabe, mantendo a pressão imunológica contra possíveis células residuais.
Para contextualizar as substâncias investigadas, segue a lista dos principais agentes utilizados no estudo:
- Durvalumabe: anticorpo que bloqueia a proteína PD‑L1, impedindo que as células tumorais escapem da resposta imunológica.
- Enfortumabe vedotina: conjugado anticorpo‑fármaco que direciona a substância citotóxica ao antígeno nectina‑4, abundante em células uroteliais.
- Tremelimumabe: imunoterapia que inibe a proteína CTLA‑4, outro regulador da resposta imune.
Um segundo braço incluiu a combinação de durvalumabe, tremelimumabe e enfortumabe vedotina, enquanto o terceiro grupo seguiu apenas a cirurgia, servindo como controle.
Resultados obtidos e impacto clínico
Os dados mostraram que o grupo que recebeu durvalumabe e enfortumabe vedotina teve uma redução de 49 % no risco de eventos relacionados à doença ou morte, comparado ao grupo controle. Em termos de sobrevida livre de eventos, 64 % dos pacientes tratados permaneceram sem recidiva após dois anos, contra 45 % dos que fizeram apenas a cirurgia.
A sobrevida global também apresentou melhora relevante. A taxa estimada de sobrevivência em dois anos foi de 78 % no grupo experimental, enquanto o controle alcançou 69 %. Essa diferença corresponde a uma diminuição de 42 % no risco de morte.
Em contraste, a adição de tremelimumabe ao regime não gerou benefício estatisticamente significativo na sobrevida global, indicando que a combinação específica de durvalumabe e enfortumabe vedotina é a mais eficaz dentro do protocolo testado.
Especialistas como o oncologista clínico geniturinário Fabio Schutz ressaltam que esses números representam um avanço importante para pacientes que não podem receber cisplatina. “Redução do risco de morte da ordem de 42 % é uma melhora significativa no resultado do tratamento”, enfatiza Schutz.
Implicações para a prática médica e próximos passos
Com base nos resultados, a combinação investigada pode tornar‑se uma nova opção padrão para pacientes com câncer de bexiga músculo‑invasivo que são inelegíveis à quimioterapia tradicional. A estratégia de administrar a imunoterapia antes da cirurgia – neoadjuvante – pode preparar o microambiente tumoral, facilitando a erradicação completa durante a cistectomia.
Além disso, a continuidade do tratamento pós‑operatório com durvalumabe oferece manutenção da resposta imunológica, reduzindo a probabilidade de micrometástases invisíveis.
Os pesquisadores planejam conduzir estudos de fase 4 para validar a segurança a longo prazo e investigar a eficácia em subgrupos específicos, como pacientes idosos ou com comorbidades cardíacas.
Enquanto isso, as diretrizes clínicas internacionais devem considerar a inclusão dessa combinação como alternativa viável, especialmente em centros oncológicos que já dispõem de infraestrutura para terapia imunológica avançada.
Em resumo, o estudo VOLGA abre caminho para uma abordagem mais personalizada e menos tóxica no tratamento do câncer de bexiga avançado, oferecendo esperança a milhares de pacientes que antes enfrentavam poucas opções terapêuticas.








