São 15h, a reunião ainda segue e, de repente, uma onda de calor sobe do peito ao rosto, provocando suor intenso e palpitações. O fenômeno dura poucos minutos, mas pode se repetir à noite, molhando o lençol e interrompendo o sono. Milhões de brasileiras vivem essa situação, muitas vezes rotulada como “coisa da idade” ou “frescura”.
Entendendo o fogacho e suas causas
O fogacho, também chamado de onda de calor, é um sintoma vasomotor típico do climatério, fase de transição em que os ovários reduzem a produção de hormônios até a menopausa definitiva, confirmada após 12 meses sem sangramento. A queda de estrogênio afeta o hipotálamo, região cerebral que funciona como termostato corporal.
Quando o hipotálamo se desregula, neurônios liberam em excesso a neurocinina B, provocando dilatação dos vasos cutâneos e sudorese para resfriar o organismo. O resultado é a sensação de superaquecimento que pode ser acompanhada de calafrios, ansiedade e palpitações.
Estima‑se que entre 50% e 90% das mulheres experimentem fogachos em algum grau durante a menopausa. O pico costuma ocorrer por volta dos 50 anos, mas os sintomas podem surgir até uma década antes da última menstruação e persistir por mais de dez anos depois.
Opções de tratamento eficazes
A terapia hormonal ainda lidera as recomendações, pois combina estrogênio com progestagênio (para quem ainda tem útero) e demonstra reduzir a frequência dos fogachos em cerca de 57% em relação ao placebo. Formas transdérmicas, como adesivos e géis, são apontadas como as mais eficazes e apresentam menor risco de trombose quando comparadas aos comprimidos.
O momento de iniciar a terapia é crucial: a orientação atual indica começar antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, quando o balanço entre benefícios e riscos é mais favorável. A decisão deve ser compartilhada com o médico, levando em conta histórico de câncer de mama, trombose, infarto, AVC ou doenças hepáticas.
Os principais riscos associados ao uso prolongado de hormônios são apresentados a seguir:
- Acidente vascular cerebral: aumento de 39%, equivalente a 5 casos a mais por mil mulheres.
- Trombose venosa profunda: risco duplicado, cerca de 10 casos a mais por mil.
- Câncer de mama: elevação de 27%, ou 5 casos a mais por mil.
É importante notar que a maioria das participantes do estudo Women’s Health Initiative tinha 60 anos ou mais, e o risco cardiovascular absoluto para mulheres entre 50 e 59 anos permanece baixo. Em 2025, a FDA retirou os alertas mais destacados sobre doenças cardiovasculares, câncer de mama e demência das bulas dos hormônios.
Além da terapia hormonal, surgiram novas classes de medicamentos que atuam diretamente no termostato cerebral. Os antagonistas da neurocinina bloqueiam a ação da neurocinina B, reduzindo a frequência e a intensidade dos fogachos.
O fezolinetanto, comercializado como Veoza, recebeu aprovação da Anvisa em junho deste ano. Estudos comparativos indicam eficácia semelhante à terapia hormonal, com melhora percebida nos primeiros dias de uso. É necessário monitoramento hepático nos primeiros meses devido a relatos raros de lesão ao fígado.
Outro antagonista, o elinzanetanto, já está disponível nos Estados Unidos e demonstra benefícios tanto para os fogachos quanto para a qualidade do sono, oferecendo uma alternativa para mulheres que não podem ou não desejam usar hormônios.
Novas diretrizes e perspectivas futuras
O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) publicou recentemente diretrizes que reforçam a necessidade de oferecer tratamento eficaz para os sintomas vasomotores. O documento recomenda fortemente tanto a terapia hormonal quanto os antagonistas da neurocinina, enfatizando a importância de individualizar a escolha terapêutica.
Essas recomendações marcam uma mudança de postura em relação ao medo histórico gerado pelo Women’s Health Initiative. Agora, os profissionais de saúde são incentivados a apresentar dados absolutos de risco, contextualizando‑os para cada faixa etária e histórico clínico.
Para as mulheres, a mensagem central é que os fogachos não são “frescura” nem algo que deva ser tolerado passivamente. Existem opções seguras e eficazes que podem melhorar significativamente a qualidade de vida, restabelecendo noites de sono reparador e reduzindo irritabilidade diurna.
É fundamental buscar orientação médica ao primeiro sinal de sintomas intensos, especialmente se houver interrupções frequentes do sono ou impactos no desempenho profissional. O diagnóstico precoce permite iniciar o tratamento dentro da janela terapêutica mais favorável.
Em resumo, o calorão na menopausa revela alterações fisiológicas complexas, mas a ciência oferece ferramentas modernas para controlá‑las. Seja por meio da terapia hormonal tradicional ou dos novos antagonistas da neurocinina, a escolha deve ser feita com informação, acompanhamento médico e atenção ao histórico individual.








