Na noite de domingo, 6 de setembro de 2026, o Palco Sunset do Rock in Rio recebeu a BaianaSystem, que entregou um show que misturou chuva, política e celebração da identidade cultural brasileira. A apresentação, intitulada “O Ciclo”, foi pensada e dirigida por Passapusso, Filipe Cartaxo e pela atriz Alice Carvalho, que também subiu ao palco para declamar um poema.
Um show marcado pela chuva e pela energia da banda
O clima do Rio não colaborou: um temporal forte começou logo na primeira música, “Água”, lançada em 2019, cujas palavras já anunciavam que “chuva miúda não mata ninguém”. O vocalista Russo Passapusso tentou transformar a situação em bênção, incentivando o público a “deixar molhar, people”.
Mesmo com a água escorrendo, a energia não diminuiu. A banda seguiu com “Sulamericano”, outro sucesso de 2019, gritando “não passa disso, não me engana, que eu sou sulamericano lá de Feira de Santana” enquanto a chuva se intensificava. Em menos de uma hora, a performance percorreu quase todos os caminhos que moldaram a história do grupo desde sua formação em 2009.
A mistura de estilos ficou evidente quando, ao longo do set, a banda incorporou referências como:
- Sound system jamaicano
- Guitarra baiana
- Música de orquestra
- Samba
- Reggae
- Cumbia
- Rock
Esses elementos foram costurados de forma orgânica, criando uma sonoridade que homenageia o passado e projeta o futuro da música popular brasileira.
Direção criativa e intervenções políticas
A direção de Alice Carvalho trouxe ao espetáculo um componente poético e visual. Próxima ao final, a atriz recitou um poema que dialogou com a mensagem de resistência presente na performance. No telão, a frase “ordem e progresso” da bandeira nacional foi substituída, em alguns momentos, por “sem anistia”, reforçando um discurso crítico ao status quo.
Passapusso repetia o refrão “soberania, soberania, soberania”, transformando o palco em um espaço de reivindicação política. A presença do triolim – instrumento criado por Dodô, um dos idealizadores do trio elétrico – também marcou a estreia de um som inovador, enquanto as vozes femininas da Orquestra Afrosinfônica enriqueceram a textura sonora.
Além da carga política, o show trouxe novidades de colaboração. No último trecho, o grupo executou “Balacobaco” (2026), parceria com a cantora Anitta. A introdução anunciava: “hoje terá balacobaco com pandeiro, cavaco e com samba de prato”, e a letra lembrava que “não importa o que você tem, o que importa é o que você faz com o que tem” – uma mensagem que sintetiza a filosofia do BaianaSystem.
Conexões com a cultura popular e projetos futuros
O BaianaSystem tem investido em projetos que levam a música para além dos grandes palcos. O programa “Nossa Cultura em Primeiro Lugar” aproxima o grupo de músicos e mestres de diferentes regiões do Brasil, reforçando o compromisso de retroalimentar o patrimônio cultural popular.
Um exemplo recente foi o show em Caruaru, no dia 29 de agosto, onde a banda homenageou a Banda de Pífanos Zé do Estado, ícone do Agreste pernambucano. Essa atitude demonstra como o grupo valoriza e preserva tradições locais, criando pontes entre gerações e estilos.
No Rock in Rio, a presença de artistas convidados, como as cantoras da Orquestra Afrosinfônica, e a exibição de instrumentos regionais reforçaram a ideia de que a música popular é um organismo vivo, em constante diálogo com seu entorno.
Com a energia ainda pulsando, a BaianaSystem encerrou o espetáculo sob a chuva, mas com a certeza de que a tempestade não apagou, mas sim intensificou, a mensagem de resistência, celebração e união. O público saiu molhado, porém inspirado, levando consigo a certeza de que a cultura popular brasileira continua a crescer, se reinventar e ocupar o centro dos grandes palcos.








