Em 28 de setembro de 2024, a Eli Lilly divulgou os primeiros resultados de um confronto direto entre duas canetas de tratamento para diabetes tipo 2. O estudo, realizado em mais de mil pacientes, comparou a nova molécula retatrutida com a já conhecida semaglutida, ambas administradas semanalmente.
Desempenho da retatrutida no estudo TRANSCEND‑T2D‑2
O ensaio clínico de fase 3, intitulado TRANSCEND‑T2D‑2, recrutou 1.298 adultos cujo diabetes não estava controlado apenas com metformina. Os participantes apresentavam hemoglobina glicada média de 8,3 % e peso corporal de 102 kg, caracterizando obesidade moderada a grave.
Durante 80 semanas, os voluntários foram randomizados para receber retatrutida em doses de 9 mg ou 12 mg, ou semaglutida 2 mg, sempre por via subcutânea. Ao final do período, a redução da hemoglobina glicada foi de 2,2 pontos percentuais nas duas doses de retatrutida, superando os 1,8 pontos observados com semaglutida.
Ambos os grupos atingiram a meta recomendada de < 7 % para a maioria dos pacientes, mas a nova caneta demonstrou maior margem de segurança glicêmica, mantendo valores ainda mais baixos que a referência.
Comparação de perda de peso entre as canetas
A diferença mais marcante entre os tratamentos foi a perda de peso. Pacientes que usaram retatrutida perderam, em média, 19,5 % do peso corporal com a dose de 9 mg e 20,9 % com a dose de 12 mg, o que equivale a cerca de 20 a 21,5 kg.
Em contraste, quem recebeu semaglutida reduziu apenas 9,4 % do peso, aproximadamente 9,5 kg. Essa disparidade representa quase o dobro da eficácia em termos de emagrecimento.
Além da balança, a pesquisa apontou melhorias adicionais em colesterol total, triglicerídeos e pressão arterial, embora os números exatos não tenham sido divulgados.
Efeitos colaterais e segurança
Como esperado para a classe dos agonistas de receptores de glucagon‑like peptide‑1 (GLP‑1) e do receptor de glicagon, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais. A diarreia ocorreu em até 32,7 % dos pacientes que usaram retatrutida, comparado a 26,4 % com semaglutida.
Outros sintomas, como náuseas e vômitos, permaneceram em níveis semelhantes entre os grupos. Um ponto de atenção foi a disestesia – sensação de formigamento ou ardor na pele – relatada por 6,5 % dos pacientes na dose mais alta de retatrutida.
- Diarréia: 32,7 % (retatrutida) vs 26,4 % (semaglutida)
- Náuseas: incidência similar nos dois grupos
- Vômitos: incidência similar nos dois grupos
- Disestesia: 6,5 % (retatrutida 12 mg)
O abandono do tratamento por efeitos adversos foi de 4,8 % e 7,9 % nas duas doses de retatrutida, contra 2,7 % com semaglutida. Na dose de 12 mg, o risco relativo de desistência foi quase três vezes maior, embora a diferença absoluta ficasse em torno de cinco pontos percentuais.
Limitações metodológicas e próximos passos
O ensaio foi aberto, o que significa que médicos e pacientes sabiam qual medicamento estava sendo administrado. Essa transparência pode influenciar a percepção de eficácia e tolerabilidade.
Além disso, os resultados apresentados correspondem a um cenário idealizado, no qual todos os participantes completaram o tratamento. Na prática clínica, a adesão pode ser menor, alterando os desfechos reais.
Os indicadores primários – hemoglobina glicada e peso – são importantes, porém não substituem desfechos clínicos como infarto, AVC ou mortalidade, que ainda serão avaliados em estudos de extensão.
Um confronto direto entre retatrutida e tirzepatida, outra molécula promissora da classe, está em andamento e deve esclarecer se a vantagem observada se mantém frente a outros concorrentes de peso.
Aspectos regulatórios e disponibilidade
A retatrutida ainda não recebeu aprovação em nenhum país. Em julho de 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou que a Eli Lilly não havia solicitado registro formal, e que produtos rotulados como retatrutida comercializados no Brasil eram ilegais.
Mesmo assim, canetas falsificadas circulam nas redes sociais e foram apreendidas nas fronteiras brasileiras em outubro de 2024. Na Austrália, autoridades relataram casos de lesão hepática grave associados a versões não regulamentadas da substância.
Essas questões reforçam a necessidade de vigilância constante e de comunicação clara aos pacientes sobre a origem dos medicamentos, especialmente quando se trata de terapias inovadoras que ainda aguardam avaliação regulatória completa.








