Em entrevista concedida nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que não comentará nem se envolverá com a carta de teor golpista divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro. A declaração foi feita em Washington, pouco depois da publicação do documento que acusa fraude nas eleições brasileiras.
Reação do presidente americano
Ao ser questionado pelos jornalistas sobre o conteúdo da carta, Trump respondeu de forma curta e direta: “Não vou comentar sobre isso. Não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha”. O tom da resposta indicou que o mandatário prefere manter distância política, apesar de sua histórica afinidade com o clã Bolsonaro.
Em declarações anteriores, Trump já havia sugerido que as eleições no Brasil apresentavam indícios de irregularidade, mas nunca chegou a apoiar oficialmente nenhum candidato. Essa postura cautelosa pode refletir a complexidade das relações diplomáticas entre os dois países, sobretudo diante de investigações em curso contra membros da família Bolsonaro.
Carta de Flávio Bolsonaro e as alegações de fraude
O senador Flávio Bolsonaro, derrotado no segundo turno pela candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, publicou um documento intitulado “Carta à Nação Brasileira”. Nele, o político afirma ser vítima de uma fraude eleitoral e agradece ao presidente dos EUA e ao presidente argentino, Javier Milei, por supostos apoios.
Na primeira versão da carta, divulgada por seu aliado Paulo Figueiredo, Flávio se autodenominou “presidente eleito” e repetiu a afirmação duas vezes. Posteriormente, ele editou o texto, substituindo a autodeclaração por “a voz e a liderança da nossa nação”.
- Acusações de fraude: Flávio aponta que a liminar do advogado de Lula, Cristiano Zanin, prorrogou a votação até as 19h, permitindo que 34 mil eleitores adicionais votassem.
- Diferença de votos: Segundo a carta, o prolongamento da votação teria acrescentado mais de 10 milhões de votos ao candidato do PT, resultando em uma vantagem de 4,4 milhões de votos para Lula no segundo turno.
- Perseguição política: O senador também denuncia uma suposta perseguição que teria começado com seu pai, Jair Bolsonaro, e se estendido a milhares de brasileiros.
Embora a carta contenha detalhes sobre supostos números e processos judiciais, nenhuma evidência concreta foi apresentada para sustentar as alegações. Analistas políticos classificam o documento como parte de uma estratégia de deslegitimação do resultado eleitoral.
Rota de fuga e apoio internacional
Após a divulgação da carta, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil, passando primeiro pela Argentina e depois pelo Equador, antes de chegar a Miami, nos Estados Unidos. A viagem ocorreu apesar de uma ordem judicial que o impedia de sair do país devido a uma investigação de lavagem de dinheiro envolvendo seu amigo e advogado, Willer Tomaz.
O governo argentino inicialmente negou registro de entrada do senador, mas a Direção Nacional de Migrações confirmou que ele cruzou a fronteira pouco antes da meia-noite de segunda‑feira, com documentação válida e sem impedimentos legais.
Segundo informações divulgadas no X (ex‑Twitter), Flávio, sua esposa Fernanda e as duas filhas embarcaram em um voo privado operado pela empresa Baires Fly S.A., partindo do aeroporto argentino de Puerto Iguazú com destino a Guayaquil, no Equador. O voo foi rastreado pelo site FlightRadar24, que mostrou a decolagem, um breve pouso para reabastecimento e a continuação até Miami.
Na terça‑feira, o governo dos Estados Unidos anunciou a concessão de vistos para Flávio e sua família, embora não tenha emitido apoio explícito ao senador nas eleições. A medida reforça a percepção de que a administração Trump mantém uma postura favorável ao grupo Bolsonaro, mesmo que de forma discreta.
Especialistas em relações internacionais apontam que a concessão de vistos pode ser vista como um gesto de boas‑vindas a um aliado político, ao passo que a recusa de comentar publicamente evita atritos diplomáticos com o governo brasileiro, que tem mantido uma postura firme contra alegações infundadas de fraude.
O caso ilustra a complexa intersecção entre política interna brasileira, influência estrangeira e estratégias de comunicação digital. Enquanto Flávio Bolsonaro busca reconstruir sua narrativa de vítima, Trump prefere manter silêncio, deixando o público internacional a interpretar os sinais de apoio e contestação que emergem nos bastidores.








