Nos bastidores da política internacional, o governo dos Estados Unidos tem articulado apoio à candidatura do ex‑primeiro‑ministro húngaro Viktor Orbán para a Secretaria‑Geral da Organização das Nações Unidas. A iniciativa, divulgada em editorial do Wall Street Journal no domingo, 25, envolve também as grandes potências da Rússia e da China. As conversas ocorreram nas últimas semanas, enquanto o Conselho de Segurança se prepara para a votação indicativa que definirá o sucessor de António Guterres.
Contexto político e diplomático
O interesse dos EUA em promover Orbán surge em um momento de intensas disputas geopolíticas. Washington busca contrabalançar a influência europeia tradicional e, ao mesmo tempo, garantir um aliado que compartilhe de uma agenda conservadora nas questões de segurança e soberania nacional. A proposta foi apresentada a representantes de Moscou e Pequim, que demonstraram receptividade em encontros anteriores.
Segundo fontes do Departamento de Estado, a estratégia americana inclui a obtenção de apoio de pelo menos oito dos quinze membros permanentes do Conselho de Segurança, com potencial para alcançar dez votos favoráveis. Essa margem seria suficiente para superar eventuais vetos de países como Reino Unido e França, que ainda não manifestaram posição oficial.
- Estados Unidos – líder da proposta e principal impulsionador.
- Rússia – alinhada por interesses estratégicos na Europa Oriental.
- China – busca ampliar sua influência nas instituições multilaterais.
- Reino Unido – ainda indeciso, pode exercer veto.
- França – também reserva seu voto, avaliando consequências internas.
O papel de Viktor Orbán e sua relação com Trump
Viktor Orbán, conhecido por suas políticas rígidas de imigração e por confrontos frequentes com a União Europeia, tornou‑se um aliado próximo de Donald Trump durante a administração anterior dos EUA. O presidente americano apoiou publicamente Orbán nas eleições húngaras de abril, enquanto o vice‑presidente J. D. Vance fez campanha em seu favor.
Orbán recebeu a proposta com interesse, mas deixou claro que não pretende entrar na disputa sem a certeza de que pode vencer. Em entrevista solicitada pelo Wall Street Journal, ele preferiu não comentar o assunto, mantendo a postura de cautela típica de sua estratégia política.
A afinidade ideológica entre Trump e Orbán se baseia em uma visão conservadora que prioriza a soberania nacional, a redução da migração e a defesa de valores tradicionais. Essa convergência tem sido um ponto de apoio para a candidatura, pois oferece a Washington um candidato que poderia reforçar a agenda ocidental mais dura dentro da ONU.
Desafios no Conselho de Segurança
O Conselho de Segurança da ONU, composto por cinco membros permanentes com poder de veto – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França – é o palco onde a candidatura de Orbán enfrentará seu maior teste. Enquanto três desses países parecem favoráveis, o posicionamento de Londres e Paris permanece incerto.
Especialistas apontam que o Reino Unido pode recusar o apoio a Orbán devido às suas políticas autoritárias na Hungria, que violam princípios de direitos humanos frequentemente defendidos por Londres. Já a França, tradicional defensora do multilateralismo liberal, pode temer que a nomeação de Orbán enfraqueça a credibilidade da ONU em questões de democracia e Estado de Direito.
Se os dois países exercerem o veto, a candidatura será bloqueada, independentemente do número de votos favoráveis dos demais membros. Por isso, a diplomacia americana tem se concentrado em negociações discretas para convencer Londres e Paris de que a presença de Orbán poderia, paradoxalmente, fortalecer a posição dos EUA nas negociações globais.
Implicações para a ONU e para a política global
A escolha de um secretário‑geral alinhado com a direita conservadora dos EUA, Rússia e China poderia mudar drasticamente o rumo da organização. Questões como a crise migratória, as sanções contra regimes autoritários e a defesa dos direitos humanos poderiam sofrer um viés mais restritivo.
Além disso, a presença de um líder que já demonstrou resistência às políticas da União Europeia poderia aprofundar as fissuras entre a ONU e os países europeus, especialmente aqueles que veem a Hungria como um exemplo de erosão democrática. Isso poderia levar a um cenário de maior polarização nas deliberações do organismo.
Por outro lado, defensores da candidatura argumentam que Orbán traria uma perspectiva de “realismo político” necessária para enfrentar conflitos como a guerra na Ucrânia, as tensões no Indo‑Pacífico e as crises humanitárias na África. Eles acreditam que um secretário‑geral com experiência em negociações duras poderia melhorar a eficácia da ONU em situações de impasse.
Enquanto isso, a diplomata dos Emirados Árabes Unidos, Lana Nusseibeh, continua na disputa, representando uma alternativa mais moderada e focada em diplomacia multilateral. Sua entrevista marcada para terça‑feira, 27, será um ponto de referência para avaliar o grau de apoio que ainda resta aos candidatos tradicionais.
Em suma, a articulação entre Washington, Moscou e Pequim para colocar Viktor Orbán na liderança da ONU revela uma nova fase de alianças estratégicas que transcendem as fronteiras habituais da política internacional. O desenrolar das negociações nos próximos dias determinará não apenas o futuro da organização, mas também o equilíbrio de poder entre as grandes potências no cenário global.








