Um estudo longitudinal conduzido no Hospital Universitário de Oslo, na Noruega, mostrou que o uso prolongado de esteroides anabolizantes provoca alterações graves no coração, mesmo quando a dose é reduzida. A pesquisa, publicada recentemente no European Heart Journal – Cardiovascular Imaging, acompanhou atletas de musculação entre 2017 e 2025. Os resultados apontam para hipertrofia ventricular e diminuição da fração de ejeção, mas também evidenciam a capacidade de recuperação após a interrupção.
Impacto dos anabolizantes no coração
Nas conversas de academia, é comum ouvir frases como “uso, mas com moderação” ou “reduzi a dose”. Essa percepção de que pequenas quantidades não causam dano tem sido reforçada por mitos circulantes nas redes sociais. Contudo, a investigação norueguesa trouxe dados objetivos que desmentem essa crença.
Os pesquisadores reavaliaram 105 homens: 70 que usaram ou ainda usavam anabolizantes e 35 que nunca haviam experimentado a substância. Todos foram submetidos a ecocardiogramas de alta resolução, que medem tamanho, espessura e desempenho do músculo cardíaco. O objetivo era comparar a função cardíaca de quem continuou o consumo com a de quem interrompeu o uso.
Os resultados iniciais foram alarmantes. Os usuários contínuos apresentaram hipertrofia ventricular – o músculo do coração ficou excessivamente espesso – e a fração de ejeção, que indica a quantidade de sangue bombeada a cada batimento, ficou em média 48%, abaixo do limite considerado saudável (acima de 50%). Além disso, o coração mostrou dificuldade em relaxar entre as contrações, comprometendo o enchimento ventricular.
Recuperação após a interrupção
Surpreendentemente, os participantes que decidiram parar o uso apresentaram melhora significativa. A massa do músculo cardíaco reduziu, e a fração de ejeção aumentou em cerca de 6 pontos percentuais. Aqueles que permaneceram abstinentes por mais tempo chegaram a ter valores quase equivalentes aos dos não usuários, demonstrando a notável capacidade de regeneração do órgão.
Um detalhe importante foi que, mesmo os usuários que reduziram a dose semanal em quase 50% não observaram recuperação. A mensagem dos cientistas foi clara: a simples diminuição da dose não reverte os danos; a interrupção total é necessária para que o coração comece a se reparar.
Outro achado relevante foi a relação entre o uso de medicamentos anti-hipertensivos e a melhor função cardíaca nos usuários de anabolizantes. Isso reforça a ideia de que a pressão alta é uma via crítica pela qual os esteroides afetam o coração, e que seu controle pode mitigar parte dos efeitos negativos.
Contexto atual do uso de anabolizantes
O consumo de esteroides não está mais restrito a fisiculturistas de elite. Hoje, homens de 30, 40 e até 50 anos, que frequentam academias de bairro, recorrem a esses compostos para melhorar a definição muscular ou como “reposição hormonal” sem necessidade médica. A publicidade nas redes sociais costuma apresentar os anabolizantes como suplementos vitamínicos, ignorando os riscos a longo prazo.
Entre os riscos mais graves estão arritmias, insuficiência cardíaca, infarto precoce e, em casos extremos, morte súbita. Esses problemas podem surgir anos após o início do uso, muitas vezes quando o atleta já não associa os sintomas ao passado de consumo.
Como interromper o uso com segurança
Parar de usar anabolizantes pode desencadear sintomas de abstinência, como fadiga, baixa libido, depressão e perda de massa muscular, devido à supressão da produção natural de testosterona. Por isso, a descontinuação deve ser acompanhada por profissionais de saúde, que podem prescrever terapias de reposição hormonal temporária ou outras estratégias para minimizar o desconforto.
Os especialistas recomendam um acompanhamento médico completo, que inclua avaliação da pressão arterial, perfil lipídico, exames de sangue hormonais e, sobretudo, um ecocardiograma para mapear o estado atual do coração. A partir desses dados, é possível traçar um plano de desmame gradual e seguro.
- Consultar um endocrinologista ou cardiologista antes de interromper.
- Realizar exames de pressão, colesterol e ecocardiograma.
- Estabelecer um plano de redução gradual, se necessário.
- Considerar terapia de reposição de testosterona sob supervisão.
- Manter acompanhamento regular para monitorar a recuperação cardíaca.
Em síntese, o estudo norueguês traz um alerta contundente: os esteroides anabolizantes comprometem a estrutura e a função do coração, mesmo quando usados com moderação. Contudo, a boa notícia é que o órgão possui uma notável capacidade de regeneração, desde que o usuário cesse o consumo e receba suporte médico adequado.
A mensagem final para quem ainda pensa em usar ou está em processo de interrupção é clara – converse com um profissional de saúde sem receio de julgamento, faça os exames necessários e dê ao seu coração a chance de se curar. Só assim será possível conciliar a busca por um corpo estético com a preservação da saúde a longo prazo.








