Na manhã de domingo, 25 de outubro de 2026, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) venceu o senador Flávio Bolsonaro nas eleições municipais da capital carioca, revertendo a tendência dos dois turnos anteriores. A vitória representou uma virada inesperada em um cenário tradicionalmente dominado pelo clã Bolsonaro. O resultado foi anunciado na sede do Tribunal Regional Eleitoral, confirmando a margem de 113 mil votos a favor de Lula.
Cenário político e histórico da família Bolsonaro
Jair Bolsonaro iniciou sua trajetória política na Câmara Municipal do Rio de Janeiro em 1988, consolidando um núcleo de apoio que seria a base para sua ascensão nacional. Quatorze anos depois, seu filho Flávio ingressou na Assembleia Legislativa do estado, aproveitando a mesma rede de influência.
Durante as campanhas de 2018 e 2022, o nome Bolsonaro garantiu a maioria dos votos tanto na capital quanto no interior, reforçando a percepção de um “berço do bolsonarismo”. No primeiro turno de 2026, a dinâmica permaneceu similar, com Flávio mantendo uma vantagem confortável sobre o adversário do PT.
Entretanto, a segunda rodada trouxe mudanças significativas, refletindo um desgaste da base tradicional e a emergência de novos atores políticos. A análise dos resultados revela que a estrutura de campanha do PT conseguiu penetrar áreas que antes eram consideradas intransponíveis para a esquerda.
A virada de Lula nas urnas cariocas
No segundo turno, o total de votos de Lula aumentou quase 25% em relação ao primeiro turno, enquanto o crescimento de Flávio ficou abaixo de 8%. Essa diferença de ritmo de crescimento foi decisiva para inverter a situação.
Além do ganho percentual, a distribuição geográfica dos votos mudou. Cinco zonas eleitorais da Zona Norte, antes dominadas pelo candidato do PL, passaram a registrar maioria para o PT, incluindo Méier, Madureira, Penha, Irajá, Vila Kosmos e Vila da Penha.
Em zonas que ainda permaneceram sob liderança de Flávio, como Cordovil, Jardim América e Vigário Geral, a margem de vantagem diminuiu consideravelmente, indicando um estreitamento da disputa em todo o município.
Nas áreas já favoráveis ao PT, como Anil, Cidade de Deus e Gardênia Azul, a margem de vitória se ampliou, reforçando a tendência de consolidação da vitória em pontos estratégicos.
Fatores que impulsionaram a mudança de voto
Especialistas apontam a mobilização intensificada de apoiadores de esquerda como um dos principais motores da virada. No dia seguinte ao primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) organizaram manifestações pró-Lula em Niterói, desencadeando uma série de protestos em todo o estado.
O engajamento digital também desempenhou papel crucial. Personalidades como Ana Elisa Santos Silva e André Janones ampliaram a presença do PT nas redes sociais, utilizando canais como o WhatsApp – o “Exército de Lula” chegou a mais de 10 milhões de inscritos.
Além da estratégia de comunicação, políticas públicas anunciadas nas semanas que antecederam a eleição contribuíram para a mudança de percepção dos eleitores. O reajuste do Bolsa Família, a proibição das apostas esportivas, o pacote de apoio a microempreendedores e a expansão do programa Pé-de-Meia foram citados como “cartadas” que atraíram eleitores indecisos.
O conjunto desses fatores – mobilização de rua, presença digital reforçada e medidas sociais concretas – criou um ambiente favorável para que o candidato do PT superasse a expectativa inicial.
Segue, abaixo, a lista das zonas eleitorais que mudaram de cor entre o primeiro e o segundo turno:
- Zona Norte – Méier
- Zona Norte – Madureira
- Zona Norte – Penha
- Zona Norte – Irajá
- Zona Norte – Vila Kosmos
- Zona Norte – Vila da Penha
Essas áreas, historicamente alinhadas ao bolsonarismo, foram decisivas para o recuo da vantagem de Flávio Bolsonaro, reduzindo a diferença de votos de quase 1,28 milhão para menos de 604 mil no segundo turno.
Em síntese, a combinação de estratégias de campanha inovadoras, ações de mobilização popular e políticas públicas direcionadas criou um cenário favorável ao PT, permitindo que Lula revertesse a tendência histórica e garantisse a vitória na capital do Rio de Janeiro.








