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Genéricos de Ozempic chegam a R$ 100 no Brasil: lições da Índia

Em março de 2026, a patente da semaglutida expirou na Índia, permitindo que laboratórios locais lançassem versões genéricas do medicamento usado no tratamento de diabetes e obesidade. Pouco depois, as mesmas condições foram atingidas no Brasil, onde a Anvisa autorizou o primeiro genérico nacional. O resultado imediato foi a queda drástica dos preços, que agora chegam a cerca de 100 reais por caneta.

O cenário indiano após a expiração da patente

Quando a proteção legal acabou, cerca de quarenta fabricantes indianos começaram a produzir a semaglutida em diferentes formas – canetas descartáveis, frascos e comprimidos. Em menos de dois meses, a oferta se multiplicou e os preços caíram de milhares de rúpias para faixas entre 1.800 e 3.500 rúpias mensais, equivalentes a 20 a 36 dólares.

Esse movimento foi acompanhado por um aumento expressivo nas vendas. Em fevereiro, antes dos genéricos, foram comercializadas 25 mil unidades. Em abril, o volume saltou para 170 mil, um crescimento de seis a sete vezes.

Impacto nos preços e consumo

Nos Estados Unidos, a mesma medicação tem preço de tabela acima de 1.000 dólares por mês. Mesmo a fabricante original, a Novo Nordisk, precisou reduzir seus valores para permanecer competitiva. Na Índia, o custo de uma caneta de semaglutida genérica ficou em torno de 100 reais quando convertido ao câmbio atual.

O efeito não se limitou à semaglutida. Outros fármacos modernos para diabetes, como as gliflozinas e as gliptinas, também viram seus preços cair entre 60% e 90% após a entrada das cópias. Em farmácias populares do governo indiano, a sitagliptina genérica pode ser adquirida por apenas 1 a 2 dólares ao mês.

Fatores que permitem o baixo custo

Três engrenagens principais explicam a diferença de preço entre a Índia e países desenvolvidos:

  • Escala de produção: o país responde por cerca de 20% dos genéricos consumidos no mundo, o que reduz custos tanto para exportação quanto para o mercado interno.
  • Legislação de patentes: desde 2005, a lei indiana impede a renovação de proteção por pequenas modificações que não tragam ganho terapêutico comprovado, evitando a prática de “perenização” de patentes.
  • Controle de preços: o governo fixa tetos para medicamentos essenciais e realiza compras em grande volume, pressionando os fabricantes a manter preços baixos.

Apesar dos preços acessíveis, a renda média das famílias indianas varia entre 133 e 292 dólares por mês, o que ainda torna o gasto com a semaglutida relevante. O acesso continua concentrado nas áreas urbanas e entre quem tem condições de pagar.

Desdobramentos no Brasil

No Brasil, a expiração da patente ocorreu no mesmo mês de março de 2026. Em maio, a Anvisa aprovou o Ozivy, genérico produzido pela EMS, que chegou ao mercado em junho custando cerca de 333 reais por caneta. Em agosto, a EMS e a Germed lançaram os primeiros genéricos nacionais.

Segundo a legislação brasileira, um medicamento genérico deve ser vendido com, no mínimo, 35% de desconto em relação ao de referência. Enquanto o Ozempic original circula próximo de 1.000 reais, os genéricos já apresentam queda de até 50% no preço médio, conforme dados de grandes redes de farmácias.

Entretanto, o Brasil ainda está longe do modelo indiano. Embora existam órgãos como a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos e o programa Farmácia Popular, a maioria dos pacientes ainda depende de compras privadas ou de planos de saúde que raramente cobrem medicamentos de uso contínuo fora do ambiente hospitalar.

Outro ponto crítico é a garantia de qualidade. A multiplicidade de fabricantes pode gerar variações entre as versões, e a farmacovigilância no país enfrenta desafios para monitorar todos os lotes comercializados.

Mesmo com a redução de preço, a semaglutida continua exigindo receita médica e acompanhamento regular, o que pode limitar sua adoção em larga escala entre a população de baixa renda.

Em síntese, a experiência indiana demonstra que inovação por si só não assegura acesso universal. O preço real de um medicamento depende de políticas públicas que alinhem produção em escala, legislação de patentes e controle de preços, além de garantir que os fármacos cheguem às redes de saúde pública.

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