O neurocientista Michihito Sugawara apresenta um protocolo para afastar da memória pessoas que causam sofrimento, usando conhecimentos da neurociência e da psicologia. O livro foi lançado recentemente pela editora Fontanar e já gera debate entre profissionais de saúde mental. A obra foi escrita no Japão, onde o autor dirige duas clínicas especializadas em bem‑estar psicológico em Tóquio.
Por que a mente insiste em fixar imagens negativas
Segundo Sugawara, a obsessão por alguém ou algo nasce da importância que atribuímos ao objeto da lembrança. Quando um relacionamento termina ou um conflito persiste, o cérebro cria circuitos de atenção que reforçam a lembrança, dificultando o esquecimento.
Um experimento clássico, conhecido como “urso branco”, ilustra esse fenômeno. Em 1987, pesquisadores dividiram participantes em dois grupos e deram instruções opostas: um grupo deveria não pensar em um urso branco, enquanto o outro deveria pensar nele por cinco minutos.
Os resultados mostraram que quem tentou não pensar acabou lembrando do urso sete vezes por minuto, quase o dobro dos que foram instruídos a focar nele. O estudo demonstra que a tentativa de supressão pode gerar o efeito contrário, ativando ainda mais as áreas cerebrais associadas ao pensamento intrusivo.
Estratégias práticas para reduzir a presença mental indesejada
Com base em evidências neurocientíficas, Sugawara propõe três medidas que podem ser adotadas no dia a dia para enfraquecer a força da lembrança. Cada ação busca redirecionar a atenção e criar novos caminhos neurais que substituem o padrão obsessivo.
- Encontre um interesse genuíno: Dedicar tempo a um hobby, aprender uma nova habilidade ou praticar atividade física ajuda a ocupar a mente e a gerar dopamina, reduzindo a necessidade de ruminar.
- Reorganize o tempo livre: Planeje a agenda com leituras, séries, encontros sociais ou projetos pessoais. Ao eliminar lacunas, diminui‑se a probabilidade de a mente voltar ao pensamento indesejado.
- Registre progressos: Anote pequenas vitórias, como dias em que a pessoa não apareceu nos pensamentos ou situações em que a ansiedade foi menor. O registro cria um feedback positivo que reforça a mudança de comportamento.
Essas práticas não substituem tratamento clínico quando há transtornos como TOC, mas funcionam como ferramentas complementares para quem busca alívio imediato.
Quando buscar ajuda profissional
É fundamental reconhecer que pensamentos recorrentes podem ser sintoma de condições psiquiátricas que exigem diagnóstico especializado. Caso a obsessão cause prejuízo significativo nas atividades cotidianas, no sono ou nas relações interpessoais, a orientação de um psicólogo ou psiquiatra torna‑se imprescindível.
Exames de imagem cerebral, como ressonância magnética funcional, já demonstraram padrões de ativação diferentes em indivíduos que praticam a supressão consciente versus aqueles que adotam estratégias de redirecionamento. Esses dados reforçam a importância de intervenções baseadas em evidência.
Em resumo, o método proposto combina ciência e prática cotidiana, oferecendo ao leitor um caminho estruturado para reduzir o impacto de memórias dolorosas. Ao aplicar as três recomendações e observar os resultados, muitas pessoas podem experimentar maior tranquilidade mental sem depender exclusivamente de intervenções farmacológicas.








