Nas eleições presidenciais de 2010 a 2022, a religião deixou de ser apenas um tema de debate nas casas de culto e passou a influenciar diretamente os palanques, os discursos e as estratégias de campanha em todo o Brasil. O sociólogo Alexandre Landim analisou esse fenômeno no livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil, publicado pela Editora Telha.
O panorama religioso nas eleições recentes
O autor demonstra que, a partir de 2010, questões morais como aborto, família e valores tradicionais ganharam destaque nas campanhas, substituindo tópicos econômicos tradicionais como inflação e taxa de juros. Essa mudança reflete a crescente participação de eleitores religiosos nas urnas.
Ao longo da última década, o catolicismo viu sua base de fiéis diminuir, enquanto os evangélicos aumentaram seu contingente, criando um novo eixo de disputa política. Essa polarização religiosa passou a ser um dos principais indicadores de comportamento eleitoral.
Os candidatos, percebendo o peso desse eleitorado, passaram a inserir referências bíblicas, citar pastores e até adaptar sua linguagem para ressoar com a sensibilidade dos fiéis. Essa estratégia foi observada tanto em campanhas de direita quanto de esquerda.
A metodologia de Alexandre Landim
Para construir sua análise, Landim consultou mais de cem pesquisas de opinião, um feito inédito nos estudos sobre religião e voto no Brasil. Ele também revisou um extenso acervo de matérias de imprensa, permitindo cruzar dados quantitativos com narrativas qualitativas.
O sociólogo utilizou técnicas de análise de conteúdo para mapear a frequência de termos religiosos nos discursos dos candidatos. Além disso, aplicou modelos estatísticos para correlacionar a filiação religiosa com o padrão de voto em cada estado.
O resultado foi um panorama detalhado que evidencia como a identidade religiosa se tornou tão relevante quanto a renda ou a escolaridade na decisão do eleitor.
- Mais de 100 pesquisas de opinião analisadas
- Revisão de milhares de artigos de mídia impressa e digital
- Aplicação de modelos de regressão multivariada
- Mapeamento de discurso religioso em debates e entrevistas
Principais achados sobre evangélicos e católicos
Os evangélicos mostraram-se mais propensos a apoiar candidatos que defendem valores conservadores, especialmente em temas como família e moral pública. Essa tendência consolidou-se a partir da eleição de 2014, quando o número de evangélicos votantes ultrapassou a marca de 30% da população eleitoral.
Por outro lado, os católicos apresentaram um padrão mais heterogêneo, dividindo-se entre candidatos de centro‑esquerda e de direita, dependendo de fatores regionais e socioeconômicos. Em regiões tradicionalmente católicas do Sudeste, a influência da religião foi mais moderada.
O estudo também revelou que a filiação religiosa interage com outras variáveis, como nível de escolaridade e renda, intensificando ou atenuando a força do voto religioso. Eleitores de baixa renda e baixa escolaridade tendem a seguir mais rigidamente as orientações de líderes religiosos.
Outro ponto importante foi a identificação de um “realinhamento eleitoral” a partir de 2010, onde a religião passou a ser um critério de escolha tão decisivo quanto a ideologia econômica.
Impactos para a política brasileira
Com a religião se consolidando como variável-chave, partidos e candidatos passaram a estruturar suas campanhas em torno de alianças com lideranças evangélicas e a adaptar suas propostas para atender às demandas morais dos fiéis. Essa mudança tem implicações diretas na formulação de políticas públicas, especialmente em áreas como educação, saúde reprodutiva e direitos civis.
Além disso, o livro alerta para o risco de que a agenda religiosa possa ofuscar discussões sobre questões estruturais, como desigualdade social e desenvolvimento econômico. Quando o debate se concentra em temas morais, questões como inflação e desemprego podem receber menos atenção nas campanhas.
Para os pesquisadores, a obra de Landim representa um marco ao oferecer um modelo de estudo que combina dados quantitativos robustos com análise qualitativa profunda. Isso abre caminho para futuras investigações sobre a intersecção entre fé e política em outras democracias.
Em síntese, O Deus das urnas demonstra que a religião não é apenas um fator cultural, mas uma força política capaz de redefinir estratégias eleitorais, moldar a agenda pública e influenciar o futuro da democracia brasileira.








