Em 25 de maio de 2025, nas eleições legislativas antecipadas realizadas em toda a Sérvia, o movimento estudantil conquistou uma vitória histórica, derrotando o Partido Progressista Sérvio (SNS) que governava o país há 14 anos. A vitória foi confirmada pelas primeiras apurações, que mostraram a Lista dos Estudantes à frente com cerca de 52% dos votos, enquanto o SNS ficou em torno de 39%.
Contexto da crise e mobilização estudantil
A origem da mobilização remonta ao trágico colapso da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que matou dezesseis pessoas e expôs graves falhas de segurança e suposta corrupção nas obras públicas. O desastre desencadeou protestos massivos, os maiores desde a queda de Slobodan Milosevic em 2000, e rapidamente se transformou em um movimento nacional contra a administração de Vucic.
Inicialmente, os estudantes exigiam apenas uma investigação transparente sobre as causas do acidente. Contudo, ao perceberem a resistência das autoridades e a manipulação midiática do SNS, passaram a reivindicar eleições antecipadas e reformas profundas na estrutura política do país.
Durante quase dois anos, as manifestações percorreram todas as regiões da Sérvia, incluindo Belgrado, Niš, Kragujevac e cidades do exterior como Paris, Munique, Chicago e Los Angeles, onde comunidades sérvias também votaram nas urnas.
Resultados eleitorais e projeções
Com 97% das urnas apuradas, a comissão eleitoral informou que a Lista dos Estudantes recebeu 2,24 milhões de votos, enquanto o SNS acumulou 1,67 milhão. A ONG CeSID, que monitorou a votação, estima que a lista estudantil deve conquistar 138 das 250 cadeiras do Parlamento, superando a maioria mínima de 126 assentos necessária para governar.
O SNS, por sua vez, ficaria com aproximadamente 104 cadeiras, o que representa uma queda significativa em relação ao último mandato completo. A participação dos eleitores foi recorde: quase 65% dos 6,4 milhões de eleitores cadastrados já haviam votado duas horas antes do fechamento das urnas, superando a taxa de comparecimento das eleições de 1993.
Os resultados também revelaram um padrão de voto disperso, com as urnas de Belgrado registrando maior concentração de votos estudantis, enquanto regiões rurais apresentaram maior apoio ao SNS, embora ainda insuficiente para mudar o panorama geral.
Desafios para a nova maioria
A Lista dos Estudantes reúne 250 candidatos provenientes de diferentes setores da sociedade civil: professores universitários, médicos, artistas, acadêmicos e atletas. A maioria desses candidatos tem pouca ou nenhuma experiência política, e o movimento não possui uma liderança centralizada, o que pode gerar dificuldades na hora de coordenar políticas públicas e manter a coesão interna.
Ilija Srdanovic, professor da Universidade de Novi Sad, lidera a lista, mas seu papel é mais de facilitador do que de chefe de partido. As decisões são tomadas em assembleias estudantis nas universidades, o que garante representatividade, porém pode tornar o processo de tomada de decisão mais lento.
Entre as principais propostas do programa eleitoral estão:
- Combate rigoroso à corrupção, com criação de um órgão independente de auditoria.
- Retirada de autoridades que violaram direitos humanos durante a repressão aos protestos.
- Proibição de nomeações políticas para a direção de empresas públicas.
- Redução do controle partidário sobre a emissora pública RTS.
- Ampliação de investimentos em saúde, educação e infraestrutura rural.
Essas medidas, embora populares, exigirão negociação com partidos menores que ainda não foram eleitos e com a própria burocracia estatal, que historicamente tem sido leal ao SNS.
Repercussões regionais e internacionais
A derrota de Vucic tem ecoado além das fronteiras sérvias. Países da União Europeia monitoram atentamente a transição, já que a Sérvia vem buscando a adesão ao bloco há anos. A mudança de governo pode abrir espaço para reformas que alinhem o país mais estreitamente com padrões europeus de governança e estado de direito.
Além disso, a vitória estudantil pode inspirar movimentos semelhantes em outras nações balcânicas, onde a juventude tem se mostrado cada vez mais insatisfeita com regimes estabelecidos. Analistas políticos apontam que a Sérvia pode se tornar um exemplo de como a mobilização civil pode transformar o panorama político em sistemas considerados estáveis.
Entretanto, a comunidade internacional também alerta para os riscos de instabilidade durante a transição. A necessidade de formar um governo funcional, aprovar leis e garantir a continuidade dos serviços públicos será um teste crucial para a credibilidade da nova maioria.
O presidente Vucic, de 56 anos, reconheceu publicamente a derrota, afirmando que “é evidente que perdemos estas eleições”. Sua postura, até agora, tem sido de tentativa de minimizar o impacto e garantir que o SNS continue atuando como força de oposição responsável.
Nos próximos meses, a atenção se volta para a negociação dos primeiros projetos de lei, a nomeação de ministros e a consolidação de alianças dentro do Parlamento. O futuro político da Sérvia está agora nas mãos de uma geração que, até pouco tempo atrás, não tinha representação direta no poder.








