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ONU denuncia crimes de guerra da Rússia contra a Ucrânia

A Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Ucrânia, criada pela Organização das Nações Unidas, divulgou na segunda‑feira, 26 de outubro de 2024, um relatório que acusa a Rússia de praticar crimes de guerra e crimes contra a humanidade ao atacar deliberadamente a rede energética ucraniana. O documento também aponta um esquema de recrutamento forçado de cidadãos de 29 países, usando tráfico humano, fraude e coerção para abastecer o Exército russo.

Ataques à infraestrutura energética

Os investigadores constataram que os bombardeios contra usinas, subestações e sistemas de aquecimento foram planejados como parte de uma política de “arma do frio”, destinada a privar a população civil de serviços essenciais. O objetivo, segundo o relatório, era criar sofrimento prolongado e desestabilizar a resistência ucraniana.

Desde o início da invasão em fevereiro de 2022, as forças russas têm realizado campanhas sistemáticas contra instalações elétricas. Os comandantes responsáveis sabiam que os alvos eram vitais, sobretudo durante o inverno, quando as temperaturas chegaram a -21 °C em algumas regiões do norte e leste da Ucrânia.

Os ataques se intensificaram no último inverno, deixando milhões sem energia, água quente e aquecimento. Em cidades como Kiev, Kharkiv, Odesa, Dnipro e Zaporizhzhia, os moradores relataram quedas de energia que duraram dias, forçando famílias a buscar alternativas improvisadas, como geradores a diesel e fogões a lenha.

Além das consequências imediatas, o relatório destaca que a destruição de infraestruturas de energia compromete a capacidade de resposta dos serviços de saúde, da educação e da segurança pública. Hospitais que dependem de energia elétrica constante tiveram que operar em modo de emergência, enquanto escolas foram forçadas a fechar.

Autoridades russas, em declarações oficiais, anteciparam novas ofensivas contra a rede energética, reforçando a ideia de que o frio foi usado como ferramenta de guerra psicológica. A comissão concluiu que esses atos violam o direito internacional humanitário, que protege civis contra ataques indiscriminados.

Consequências humanitárias do frio

Para avaliar o impacto dos ataques, a comissão ouviu 255 testemunhos em nove regiões diferentes, coletando relatos de civis, profissionais de saúde e organizações não governamentais. Os depoimentos revelam um quadro de sofrimento extremo, especialmente entre idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

Um homem de 53 anos descreveu o medo constante de “adormecer e não acordar mais”, comparando a experiência a uma tortura de frio. Uma mulher de 74 anos, residente em Kiev, relatou que ficou deitada no chão, sem aquecimento, sem comida e sem medicamentos, incapaz de subir escadas para buscar abrigo.

Os profissionais de saúde relataram um aumento significativo de casos de hipotermia e congelamento de graus variados. Em hospitais de Kharkiv, foram registrados mais de 120 pacientes com hipotermia grave, exigindo cuidados intensivos e, em alguns casos, resultando em óbito.

Além das mortes diretas, o frio exacerbou doenças crônicas, como problemas cardíacos e respiratórios. Pacientes com asma e insuficiência cardíaca relataram agravamento dos sintomas devido à falta de aquecimento adequado.

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, utilizou a rede social X para acusar Moscou de transformar o frio e a escuridão em “instrumentos de guerra”. Ele afirmou que a estratégia russa visa “privar deliberadamente milhões de pessoas de eletricidade, aquecimento e água”.

Organizações humanitárias internacionais, como a Cruz Vermelha e o ACNUR, mobilizaram recursos para distribuir mantas térmicas, geradores portáteis e kits de emergência. No entanto, o acesso a áreas fortemente afetadas permanece dificultado por bombardeios contínuos.

O relatório também menciona que o medo de usar elevadores durante alertas de bombardeio impediu muitas pessoas de alcançar abrigos seguros, aumentando a vulnerabilidade das populações mais frágeis.

Recrutamento forçado e tráfico humano

A segunda parte do documento foca no recrutamento de estrangeiros para o Exército russo. A comissão encontrou evidências de que cidadãos de 29 países foram vítimas de tráfico humano, enganados por promessas de emprego e salários atrativos.

Os recrutadores utilizavam redes de intermediários, muitas vezes com apoio de autoridades locais, para atrair jovens com anúncios de trabalho em construção, agricultura ou tecnologia. Ao chegarem à Rússia, os indivíduos eram obrigados a assinar contratos militares redigidos em russo, sem compreender plenamente os termos.

O relatório descreve ainda o confisco de passaportes e telefones celulares, o desvio dos pagamentos prometidos e a interrupção total do contato com familiares. Em muitos casos, as vítimas foram mantidas em campos de treinamento isolados, sob vigilância armada.

Entre os países identificados como fontes de recrutamento, destacam‑se:

  • Venezuela
  • Irã
  • Bangladesh
  • África do Sul
  • Estados Unidos (cidadãos que foram enganados por falsos anúncios)
  • Ucrânia (civis capturados em zonas ocupadas)

Os investigadores ressaltam que a maioria das vítimas eram homens entre 18 e 35 anos, mas também foram identificados casos de mulheres forçadas a servir como apoio logístico ou em funções de combate.

Autoridades russas negam as acusações e afirmam que os estrangeiros que se juntam às forças armadas o fazem de forma voluntária. Contudo, o relatório da ONU aponta que a coerção, a fraude e o tráfico são práticas sistemáticas, violando a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional.

O documento recomenda a abertura de investigações internacionais independentes e a imposição de sanções contra indivíduos e entidades envolvidas no recrutamento ilícito. Também sugere a criação de mecanismos de proteção para os familiares das vítimas, que muitas vezes permanecem sem saber o destino dos entes queridos.

Ao final, a comissão informou que submeterá o relatório à Assembleia Geral da ONU, onde espera-se que a comunidade internacional tome medidas concretas para responsabilizar os responsáveis e impedir a continuidade desses crimes.

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