Em março de 2023, na capital paulista, descobri que o meu pulmão direito abrigava uma infecção que revela uma epidemia global e milenar: a tuberculose. O sintoma começou com febre alta, suor noturno e tosse persistente, levando-me ao pronto‑socorro do Hospital Sírio‑Libanês. O diagnóstico inesperado mudou completamente meus planos para os próximos meses.
O diagnóstico inesperado
Após duas semanas de internação, os exames confirmaram a presença do bacilo Mycobacterium tuberculosis. Na minha cabeça, a tuberculose era coisa de história, associada a múmias egípcias e a personagens do século XIX. Nunca imaginei que, vivendo em um apartamento bem ventilado no centro de São Paulo, eu poderia ser contagiado.
A primeira reação foi de descrença. Perguntei‑me onde poderia ter pegado a doença e se isso tinha alguma relação com a pandemia de Covid‑19 que ainda assolava o país. A médica Fernanda Descio, infectologista da Unifesp, explicou que a transmissão ocorre por gotículas expelidas ao tossir ou espirrar, em ambientes fechados ou superlotados, como metrôs, escritórios e transportes públicos.
O tratamento começou imediatamente, seguindo o protocolo de seis meses recomendado pela OMS. Durante esse período, decidi investigar a fundo a doença e descobri que a tuberculose ainda representa um dos maiores desafios de saúde pública mundial.
A epidemia global de tuberculose segundo a OMS
Segundo o Global Tuberculosis Report de 2023, publicado pela Organização Mundial da Saúde, a tuberculose registrou 7,5 milhões de novos casos em 2022, o maior número desde que a OMS começou a monitorar a doença de forma sistemática, em 1995. Esse aumento alarmante indica que a doença está longe de ser controlada.
Em 2022, a tuberculose foi responsável por 1,3 milhão de mortes, posicionando‑se como a segunda infecção mais fatal do planeta, atrás apenas da Covid‑19, mas com o dobro de óbitos da AIDS. Apesar desse cenário sombrio, há sinais de melhora: a taxa de mortalidade caiu 19% desde 2015, quando a OMS lançou a Estratégia Global pelo Fim da Tuberculose, com metas ambiciosas para erradicar a doença até 2035.
- 7,5 milhões de novos casos em 2022;
- 1,3 milhão de mortes no mesmo ano;
- Redução de 19% nas mortes desde 2015;
- Objetivo de erradicação até 2035.
O relatório destaca ainda que a pandemia de Covid‑19 interferiu nos números, pois muitas pessoas evitaram buscar atendimento médico entre 2020 e 2021, resultando em sub‑registro de casos. Quando as restrições foram relaxadas, o número de diagnósticos voltou a subir, revelando a dimensão real da epidemia.
Desafios e perspectivas no Brasil
No Brasil, os dados mais recentes do Ministério da Saúde são de 2021. Naquele ano, 5.072 pessoas morreram de tuberculose, representando um aumento de 11% em relação a 2020. O número de casos diagnosticados também subiu 5,4%, alcançando 74,3 mil pacientes.
Essas estatísticas colocam o país em uma situação delicada, sobretudo porque a tuberculose afeta principalmente populações vulneráveis, como moradores de áreas periféricas, pessoas em situação de rua e pacientes com HIV. A falta de respostas rápidas das autoridades sanitárias tem sido criticada por especialistas e pela sociedade civil.
Em entrevista, o diretor‑geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, descreveu a tuberculose como “uma infecção milenar que ainda assombra a humanidade”. Ele ressaltou que, apesar dos avanços científicos, ainda falta compromisso político e investimento em diagnóstico precoce, tratamento adequado e campanhas de prevenção.
Para enfrentar esses desafios, o Brasil tem adotado medidas como a ampliação de unidades de saúde que realizam o teste rápido GeneXpert, a distribuição de medicamentos de primeira linha e a integração da tuberculose com programas de HIV e Covid‑19. Contudo, a efetividade dessas ações depende de financiamento contínuo e de estratégias de sensibilização da população.
Além das políticas públicas, é fundamental que a população esteja informada sobre os sinais da doença: tosse com escarro por mais de duas semanas, febre, suor noturno e perda de peso. O diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de cura e reduz a transmissão.
Em resumo, a minha experiência pessoal revelou que a tuberculose não é apenas uma doença do passado, mas uma realidade presente que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo. A combinação de dados alarmantes, falhas nos sistemas de saúde e a necessidade de maior engajamento político cria um cenário desafiador, mas também uma oportunidade única para mudar o rumo da história da doença.








