Uma nova terapia combinada mostrou, em um estudo de fase 3, que pode reduzir em 42% a chance de recorrência ou morte de pacientes com melanoma cutâneo avançado. O resultado foi anunciado no dia 24 de junho, durante a reunião anual da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri, Espanha.
Resultados do estudo INTerpath-001
O ensaio clínico, denominado INTerpath-001, recrutou 1.137 pacientes que haviam sido submetidos à cirurgia para remoção de melanoma em estágios IIB, IIC, III ou IV. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: um recebeu a vacina de mRNA personalizada (intismeran autógeno) associada ao pembrolizumabe, enquanto o outro recebeu apenas pembrolizumabe com placebo.
Após um acompanhamento mediano de 26 meses, a combinação mostrou uma redução de 42 % no risco de recorrência ou óbito em comparação ao tratamento padrão. Essa diferença foi ainda mais marcante a partir do sexto mês de terapia, quando a diminuição do risco chegou a 58 %.
Os números de sobrevida livre de recorrência reforçam a eficácia da abordagem. Dois anos após o início do tratamento, 82,2 % dos pacientes que receberam a vacina estavam vivos e sem sinais de retorno do tumor, contra 70 % no grupo controle.
Além disso, a taxa de metástase à distância ou morte foi 38 % menor entre os que receberam a terapia combinada. No mesmo intervalo de dois anos, 88,5 % dos pacientes tratados com a vacina permaneceram livres de disseminação, enquanto 80,2 % dos que usaram apenas pembrolizumabe apresentaram esse benefício.
Como funciona a vacina de mRNA personalizada
A estratégia parte da análise genômica de uma amostra do tumor de cada paciente. Os pesquisadores identificam neoantígenos – mutações específicas que criam “marcadores” reconhecíveis pelo sistema imunológico.
Com base nesses neoantígenos, um mensageiro de RNA (mRNA) é sintetizado sob medida. Esse mRNA funciona como um “cartaz de procurado”, instruindo as próprias células do organismo a apresentar os alvos ao sistema de defesa.
Quando o mRNA entra nas células, estas produzem proteínas que exibem os neoantígenos na superfície, permitindo que linfócitos T reconheçam e ataquem as células cancerosas de forma mais precisa.
O pembrolizumabe, por sua vez, bloqueia a proteína PD‑1, removendo um freio que impede as células T de agir. A sinergia entre o bloqueio de PD‑1 e a apresentação personalizada dos antígenos potencializa a resposta imunológica.
- Coleta da amostra tumoral
- Sequenciamento genômico para identificação de neoantígenos
- Síntese de mRNA individualizado
- Administração conjunta com pembrolizumabe
O processo de produção da vacina demanda tempo, o que explica a latência observada nos primeiros meses de tratamento. Contudo, a resposta imunológica se consolida e gera benefícios duradouros.
Implicações para pacientes e futuro da oncologia
Para os pacientes, a combinação representa uma esperança concreta de prolongar a vida livre de doença, especialmente em estágios avançados onde as opções terapêuticas são limitadas.
Do ponto de vista científico, o estudo abre caminho para a expansão da medicina personalizada em oncologia. A mesma plataforma de mRNA está sendo testada em tumores de bexiga, pulmão e rim, sugerindo um potencial de aplicação transversal.
Os resultados também reforçam a importância das parcerias entre indústrias farmacêuticas. A vacina intismeran foi desenvolvida em colaboração entre a Moderna e a Merck (MSD no Brasil), combinando expertise em tecnologia de mRNA e imunoterapia.
Embora o perfil de segurança tenha sido considerado consistente com as terapias já conhecidas, é necessário um acompanhamento mais longo para confirmar a durabilidade do benefício e monitorar possíveis efeitos adversos.
Especialistas acreditam que, nos próximos anos, a integração de vacinas personalizadas com outras estratégias imunológicas pode transformar o manejo de diversos tipos de câncer, tornando o tratamento cada vez mais específico e eficaz.








