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Calculadora PREVENT revoluciona a avaliação do risco cardiovascular no Brasil

Em 2024, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) lançou uma calculadora de risco cardiovascular baseada no escore PREVENT, desenvolvido nos Estados Unidos. A ferramenta permite que médicos estimem, em poucos minutos, a probabilidade de um paciente sofrer infarto, AVC ou insuficiência cardíaca nos próximos dez anos. O cálculo utiliza dados simples coletados em consultas de rotina, facilitando a tomada de decisão clínica.

Como funciona a calculadora PREVENT

A nova ferramenta pede informações básicas que já são registradas em qualquer consulta bem feita: idade, sexo, pressão arterial sistólica, peso, altura, hábito de fumar, presença de diabetes e uso de medicamentos para pressão ou colesterol. Esses dados são inseridos em campos digitais e o algoritmo gera instantaneamente um número que representa o risco percentual.

Além dos parâmetros citados, a calculadora aceita resultados de exames de sangue de rotina, como colesterol total, HDL (colesterol “bom”) e creatinina, que indica a função renal. Quando disponíveis, a hemoglobina glicada e a albumina na urina podem ser adicionados para refinar ainda mais a estimativa, mas não são obrigatórios para obter um resultado inicial.

O modelo foi treinado com mais de seis milhões de registros de pacientes norte‑americanos, mas foi calibrado para a realidade brasileira de acordo com as diretrizes nacionais. Ele se aplica a adultos entre 30 e 79 anos que ainda não tenham apresentado infarto, derrame ou insuficiência cardíaca, permitindo uma previsão de eventos nos próximos dez anos.

Para quem está na faixa etária de 30 a 59 anos, a ferramenta também projeta o risco para as próximas três décadas, oferecendo um panorama de longo prazo que pode ser usado como argumento motivacional para mudanças de estilo de vida em pacientes jovens.

Os resultados são apresentados em três categorias de risco – baixo, intermediário e alto – que orientam diretamente as metas de tratamento, como níveis de LDL, pressão arterial e controle glicêmico.

Principais avanços em relação às ferramentas antigas

A PREVENT traz três inovações que a diferenciam das tabelas e calculadoras usadas até então. Primeiro, incorpora a função renal através da creatinina, reconhecendo que coração, rins e metabolismo estão interligados no desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Segundo, calcula separadamente o risco de insuficiência cardíaca, algo que as versões anteriores não faziam, permitindo que médicos identifiquem pacientes que podem precisar de intervenções específicas para evitar a sobrecarga do coração.

Terceiro, elimina a variável raça, que era utilizada em modelos antigos e gerava controvérsias éticas e de precisão. A exclusão desse fator torna a estimativa mais justa e baseada em indicadores fisiológicos.

  • Integração renal: creatinina e albumina na urina entram no cálculo.
  • Risco de insuficiência cardíaca: avaliação distinta do risco de falência do músculo cardíaco.
  • Neutralidade racial: modelo livre de categorias raciais, focado em fatores clínicos.

Essas melhorias aumentam a confiabilidade da previsão e permitem que as diretrizes de tratamento sejam aplicadas de forma mais personalizada, reduzindo a chance de sub‑ ou super‑tratamento.

Impacto na prática clínica e nas especialidades médicas

O cálculo do risco cardiovascular deixa de ser um procedimento burocrático para se tornar o ponto de partida de todo plano terapêutico. De acordo com as diretrizes brasileiras de colesterol, pacientes com risco baixo devem manter o LDL abaixo de 115 mg/dL, enquanto os de risco intermediário têm meta de menos de 100 mg/dL e os de alto risco, menos de 70 mg/dL.

Essas metas são acompanhadas por recomendações de pressão arterial (<140/90 mmHg para risco baixo e <130/80 mmHg para risco alto) e controle glicêmico, que orientam a decisão de iniciar ou intensificar medicamentos. No caso do diabetes, pacientes com risco cardiovascular elevado podem receber classes de fármacos que demonstram proteção ao coração e aos rins, como inibidores de SGLT2 ou GLP‑1.

Em termos práticos, dois pacientes com colesterol total igual podem receber prescrições diferentes se o cálculo indicar risco divergente. O número gerado pela PREVENT, portanto, decide quem deve ser tratado de forma mais agressiva e quem pode seguir com intervenções de estilo de vida.

Clínicos gerais e médicos de família, que são a primeira linha de contato, são os principais usuários da ferramenta, pois podem integrar o risco na rotina de consultas de adultos. Endocrinologistas, ao tratar diabetes e obesidade, utilizam o escore para ajustar terapias que vão além da glicemia.

Nefrologistas encontram na função renal um dos pilares do cálculo, permitindo que pacientes com doença renal crônica recebam intervenções cardiovasculares adequadas. Geriatras, por sua vez, ponderam o risco em idosos, equilibrando benefícios e possíveis efeitos adversos de medicamentos.

Reumatologistas que acompanham doenças inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide e lúpus, também se beneficiam, já que a inflamação acelera a aterosclerose. Pneumologistas que tratam fumantes e pacientes com DPOC podem usar o resultado para reforçar a necessidade de cessação do tabagismo.

Cirurgiões vasculares, que observam a consequência direta da aterosclerose nas artérias periféricas, utilizam o escore para decidir sobre intervenções cirúrgicas ou endovasculares, alinhando o risco sistêmico ao risco local.

Apesar de sua robustez, a calculadora ainda tem limitações. Ela foi desenvolvida com base em dados da população americana e, embora calibrada para o Brasil, carece de validação em estudos nacionais de longo prazo. Por isso, os profissionais são orientados a combinar o número gerado com a avaliação clínica completa.

Em resumo, a PREVENT transforma a avaliação de risco cardiovascular em uma prática rápida, baseada em evidências e alinhada às diretrizes atuais, potencializando a prevenção de infartos, AVCs e insuficiência cardíaca em todo o país.

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