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Médica destaca necessidade de mais mulheres nos estudos sobre câncer de pulmão

Durante a abertura do congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri, nesta sexta‑feira, 23 de junho, a oncologista espanhola Pilar Garrido alertou sobre a escassa participação feminina nos estudos clínicos de câncer de pulmão. Ela ressaltou que, embora o tabagismo continue sendo o principal fator de risco, um número crescente de mulheres desenvolve a doença sem nunca ter fumado. O discurso foi feito no contexto da entrega do prêmio “ESMO Women for Oncology”, reconhecendo sua contribuição para o tratamento oncológico e a defesa da equidade de gênero.

Cenário atual do câncer de pulmão em mulheres

Historicamente, o câncer de pulmão foi associado a homens mais velhos com histórico intenso de tabagismo. Nos últimos anos, porém, os dados epidemiológicos revelam uma mudança significativa: a incidência entre mulheres, inclusive aquelas que nunca fumaram, tem aumentado de forma constante. Estudos recentes apontam que cerca de dois terços dos casos em não‑fumantes ocorrem em mulheres, sobretudo em populações do Leste Asiático.

No Brasil, a tendência é similar. Uma revisão publicada no JCO Global Oncology mostrou que a proporção de mulheres não‑tabagistas diagnosticadas com câncer de pulmão tem crescido de maneira consistente, indicando que fatores diferentes do cigarro precisam ser investigados com mais profundidade.

Desigualdade na pesquisa clínica

Um dos pontos críticos levantados por Garrido foi a representatividade feminina nos ensaios clínicos que embasam as diretrizes de rastreamento e tratamento. Nos principais estudos internacionais, a presença de mulheres ainda é minoritária.

  • Ensaios NLST (EUA): 59% dos participantes eram homens.
  • Estudo NELSON (Europa): apenas 16% das recrutadas eram mulheres.
  • Outros ensaios recentes apresentam participação feminina entre 20% e 30%.

Essa disparidade pode gerar vieses nas recomendações de rastreamento, que tradicionalmente se baseiam em idade e carga tabágica medida em maços‑ano. Mulheres que não se enquadram nesses parâmetros podem ser deixadas de fora, mesmo apresentando risco significativo.

Fatores de risco além do tabagismo

Além do cigarro, diversos fatores aumentam a vulnerabilidade das mulheres ao desenvolvimento de tumores pulmonares. A pesquisadora destacou que diferenças biológicas, como variações no metabolismo de substâncias tóxicas e na reparação do DNA, podem tornar o tecido pulmonar feminino mais sensível aos agentes carcinogênicos.

  • Histórico familiar e predisposição genética (mutação em EGFR, HER2, BRCA2, CHEK2, MET, YAP1).
  • Exposição à fumaça de segunda‑mão, especialmente em lares onde alguém fumou por mais de 30 anos.
  • Poluição do ar interno, proveniente da queima de combustíveis sólidos e das partículas liberadas em frituras de alta temperatura.
  • Fatores hormonais que podem influenciar a expressão de receptores em células pulmonares.

Nos Estados Unidos, mais de 55% das mulheres asiáticas e 30% das hispânicas diagnosticadas com câncer de pulmão de não‑células pequenas nunca fumaram. Esse perfil também se repete em populações jovens, que apresentam maior probabilidade de pertencer ao grupo de não‑fumantes.

Caminhos para a equidade e novas diretrizes

Garrido propôs uma série de medidas para corrigir o desequilíbrio de gênero na pesquisa oncológica. Entre elas, a inclusão de cotas mínimas para mulheres nos ensaios clínicos e a revisão dos critérios de rastreamento para considerar fatores de risco específicos ao sexo.

Ela também enfatizou a necessidade de criar protocolos de rastreamento que incluam mulheres não‑tabagistas, reconhecendo que o risco pode estar associado a exposições ambientais e genéticas. A adaptação das diretrizes brasileiras e internacionais para contemplar essas variáveis seria um passo crucial para melhorar a detecção precoce.

Por fim, a oncologista ressaltou a importância de financiar pesquisas que investiguem as diferenças biológicas entre homens e mulheres no contexto do câncer de pulmão. Apenas com dados robustos será possível desenvolver terapias personalizadas que atendam às necessidades específicas das pacientes.

Em síntese, o discurso de Pilar Garrido no ESMO trouxe à luz um problema estrutural que afeta a eficácia dos tratamentos e a precisão dos programas de prevenção. A chamada para maior inclusão feminina nos estudos clínicos representa não apenas uma questão de justiça, mas também de saúde pública, pois a falta de representatividade pode comprometer a qualidade das evidências que sustentam as políticas de saúde globais.

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