O candidato Flávio Bolsonaro (PL) tem ganhado força nas cidades da Amazônia, especialmente em Roraima, onde as eleições presidenciais de 2026 se aproximam. Na manhã da sexta‑feira, 23 de outubro, lideranças indígenas e ambientalistas expressaram preocupação com a possibilidade de reviver o garimpo ilegal e enfraquecer as políticas de proteção territorial. O clima de tensão se intensifica à medida que o segundo turno se aproxima, marcado para o domingo, 25 de outubro.
Cenário político na Amazônia
Em municípios como Mucajaí, interior de Roraima, Flávio Bolsonaro alcançou quase 79% dos votos no primeiro turno, representando seu melhor desempenho proporcional no estado. O senador venceu em 14 dos 15 municípios, consolidando uma base eleitoral que associa sua candidatura à retomada da atividade econômica baseada na mineração. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019‑2022), a região foi um dos principais corredores de entrada de garimpeiros ilegais nas Terras Indígenas Yanomami.
Com a mudança de governo para Luiz Inácio Lula da Silva, as operações de combate ao garimpo clandestino foram intensificadas, resultando na redução de postos de trabalho informais que sustentavam muitas famílias locais. Essa diminuição de renda gerou um sentimento de abandono entre os moradores, que agora veem na candidatura de Flávio Bolsonaro uma esperança de revitalizar a economia regional.
A partir de janeiro de 2027, sete dos nove estados da Amazônia terão governadores alinhados ao bolsonarismo, e o Congresso deve contar com um contingente maior de parlamentares de direita. Essa reconfiguração política pode influenciar diretamente a agenda de proteção ambiental e os direitos territoriais dos povos indígenas.
Impactos do garimpo nas terras indígenas
O garimpo ilegal tem causado danos irreversíveis ao meio ambiente e às comunidades indígenas. Entre os principais impactos estão a contaminação dos rios por mercúrio, a degradação de florestas e a ruptura de modos de vida tradicionais que dependem da biodiversidade local. Os Yanomami, por exemplo, já relataram aumento de doenças respiratórias e de pele vinculadas à poluição das águas.
Além dos efeitos ecológicos, a presença de garimpeiros gera conflitos violentos. Estudos recentes apontam que cerca de 30% dos confrontos registrados nas áreas protegidas da Amazônia estão relacionados a disputas por territórios de mineração. Esses confrontos frequentemente resultam em deslocamento forçado de aldeias e em perdas humanas, tanto entre indígenas quanto entre trabalhadores informais.
O retorno de atividades de mineração legalizada, defendido por parte da população local, pode aprofundar esses problemas. A legalização, sem a devida fiscalização, abriria caminho para a expansão de infraestrutura — como pistas de pouso clandestinas — que facilitariam o acesso de equipamentos pesados e aumentariam a pressão sobre áreas ainda intocadas.
Vozes das comunidades e dos líderes indígenas
Durante a visita à região, Flávio Bolsonaro ouviu eleitores que enxergam na sua candidatura a possibilidade de recuperar empregos perdidos. Rosimari Monteiro, instrutora de direção de 38 anos, atribui parte das dificuldades financeiras de Mucajaí à redução dos garimpos e acredita que uma vitória do senador poderia “legalizar a exploração mineral em territórios indígenas”, trazendo o que ela chama de “luz no fim do túnel” para sua família e comunidade.
Entretanto, a perspectiva dos líderes indígenas é diametralmente oposta. Júnior Hekurari, presidente da Associação Urihi Yanomami, alertou que o apoio ao candidato pode resultar em consequências devastadoras para os povos indígenas. Ele relatou que, após o primeiro turno, aldeões receberam telefonemas de garimpeiros solicitando a abertura de pistas de pouso clandestinas, indicando uma preparação para retomar as atividades ilícitas.
“Ao votar 22, os brasileiros estão assinando uma certidão de óbito para os Yanomami e para os indígenas em geral”, afirmou Hekurari, de 40 anos, ao jornal britânico The Guardian. Essa declaração reflete o medo de que a política de mineração seja priorizada em detrimento dos direitos humanos e da preservação cultural.
- Demandas de Mucajaí: retomada de empregos, investimento em infraestrutura básica, garantia de segurança pública.
- Exigências dos Yanomami: demarcação efetiva das terras, fiscalização rigorosa contra garimpo, apoio a projetos de desenvolvimento sustentável.
- Reivindicações de ambientalistas: monitoramento de rios, combate ao desmatamento, fortalecimento de unidades de conservação.
Perspectivas para o futuro e riscos ambientais
Se Flávio Bolsonaro for eleito, a expectativa é que políticas de incentivo à mineração ganhem força, possivelmente revertendo as conquistas ambientais alcançadas nos últimos anos. Analistas apontam que a combinação de apoio popular em áreas vulneráveis economicamente e a presença de parlamentares alinhados ao bolsonarismo pode criar um ambiente propício para a revisão de normas de licenciamento ambiental.
Por outro lado, a comunidade internacional tem acompanhado de perto a situação na Amazônia, e pressões de organismos como a ONU e de acordos climáticos podem limitar a margem de manobra do governo federal. No entanto, a efetividade dessas pressões dependerá da capacidade de mobilização interna de grupos indígenas e da sociedade civil.
Em síntese, o avanço de Flávio Bolsonaro na Amazônia representa um ponto de inflexão que coloca em risco não apenas a preservação de ecossistemas únicos, mas também a sobrevivência cultural de povos que há séculos habitam a região. O resultado das eleições de 2026 definirá se a Amazônia seguirá rumo a um modelo de desenvolvimento baseado em exploração mineral ou se consolidará um caminho de sustentabilidade e respeito aos direitos indígenas.








