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Operadoras regionais lançam internet por satélite em smartphones

As operadoras regionais Brisanet, Unifique e Iez! Telecom anunciaram, nesta quarta‑feira, a assinatura de um acordo com a empresa americana AST SpaceMobile para disponibilizar internet via satélite nos celulares dos seus clientes. O contrato foi firmado em maio de 2024, mas a divulgação oficial ocorreu hoje, 23 de outubro de 2024, durante evento realizado nas sedes das três companhias. O serviço será testado nas áreas de atuação de cada operadora, começando em novembro de 2024.

Como a tecnologia de internet via satélite será integrada aos smartphones

A AST SpaceMobile pretende usar a faixa de 700 MHz, recentemente adquirida pelas operadoras, para transmitir sinais diretamente para aparelhos padrão, sem a necessidade de antenas externas ou chips especiais. Essa frequência permite que o sinal penetre obstáculos como paredes e vegetação, ampliando a cobertura em regiões onde a rede terrestre é inexistente ou fraca. O modelo D2D/D2C (direct‑to‑device e direct‑to‑cell) está sendo testado dentro do sandbox regulatório aberto pela Anatel.

Para conectar as redes móveis das três empresas à constelação de satélites, cada operadora será responsável por adaptar sua infraestrutura de rádio‑acesso e por instalar gateways que convertem o tráfego terrestre em sinais compatíveis com o satélite. O objetivo, segundo a Brisanet, é viabilizar chamadas de voz, navegação de dados em banda larga e streaming de vídeo diretamente em smartphones comuns, dispensando atualizações de software ou aplicativos adicionais.

Os usuários poderão ativar o serviço como uma opção dentro do plano já contratado, sem a necessidade de adquirir um dispositivo dedicado. Caso a operadora decida cobrar um valor extra, isso será anunciado antes do início dos testes, garantindo transparência ao consumidor. A expectativa é que, ao final do período piloto de dois anos, o modelo de negócios seja definido com base nos resultados de desempenho e na aceitação do público.

  • Conexão direta ao satélite sem antenas externas;
  • Uso da mesma frequência de redes terrestres (700 MHz);
  • Compatibilidade com smartphones padrão;
  • Sem necessidade de aplicativos ou atualizações de firmware.

Cronograma, áreas de teste e licenças regulatórias

As licenças concedidas pela Anatel permitem que Brisanet, Unifique e Iez! Telecom iniciem os testes em novembro de 2024, com duração prevista de dois anos. Cada operadora realizará os experimentos dentro de sua zona de cobertura habitual: Brisanet no Nordeste, Unifique no Sudeste e Iez! Telecom no Centro‑Oeste. As áreas do Consórcio Amazônia 5G, que incluem o estado de São Paulo e a região Norte, estão excluídas das primeiras fases de implementação.

Embora as autorizações já tenham sido emitidas, ainda falta a publicação oficial no Diário Oficial da União, passo necessário para que as atividades sejam consideradas plenamente legais. Enquanto isso, as empresas já estão preparando os equipamentos de teste, como estações base temporárias e terminais de monitoramento, que serão instalados em pontos estratégicos de cada região.

Em 2023, a AST SpaceMobile realizou testes em conjunto com a TIM, mas o projeto não avançou devido a divergências contratuais e à falta de um ambiente regulatório claro. O novo acordo com as operadoras regionais representa, portanto, a primeira tentativa de levar a tecnologia ao mercado brasileiro em escala comercial.

O calendário detalhado prevê três marcos principais: (1) instalação da infraestrutura de gateway até o final de dezembro de 2024; (2) início da transmissão de dados ao vivo em janeiro de 2025; e (3) avaliação de desempenho e ajustes técnicos em junho de 2025, antes da fase de expansão prevista para 2026.

Desafios técnicos, econômicos e competitivos

Um dos maiores desafios ainda é a disponibilidade de satélites suficientes para garantir cobertura constante. A AST SpaceMobile planeja concluir sua constelação de 243 satélites até 2028, mas atualmente opera apenas 13 unidades, o que limita a capacidade de oferecer serviço ininterrupto em todo o território nacional.

Além da quantidade de satélites, a latência de comunicação pode ser um ponto crítico para aplicações que exigem resposta em tempo real, como jogos online ou videoconferências de alta definição. As operadoras estão testando técnicas de compressão e roteamento inteligente para minimizar esse impacto e garantir experiência de uso satisfatória.

Do ponto de vista econômico, o modelo de negócios ainda está em fase de definição. Se o serviço for cobrado como um complemento ao plano móvel, as operadoras precisarão equilibrar o preço adicional com o valor percebido pelos usuários que vivem em áreas rurais ou de difícil acesso. Por outro lado, a oferta gratuita pode atrair novos clientes, mas exigirá subsídios significativos para cobrir os custos operacionais e de manutenção dos satélites.

Competitivamente, a iniciativa pode mudar o cenário das telecomunicações no Brasil. As três operadoras regionais, ao unirem forças, criam uma frente comum contra as gigantes nacionais Vivo, Claro e TIM, que já testam soluções semelhantes, como a parceria da Vivo com a Starlink. Caso o projeto seja bem‑sucedido, as empresas podem ganhar vantagem estratégica ao oferecer cobertura em locais onde as concorrentes ainda não chegam.

Perspectivas para o futuro da conectividade via satélite no país

Se os testes confirmarem a viabilidade técnica e econômica, a expectativa é que a internet via satélite se torne um complemento permanente às redes terrestres, especialmente em regiões com baixa densidade populacional. O governo federal tem sinalizado apoio a projetos de conectividade rural, o que pode abrir portas para incentivos fiscais e subsídios adicionais.

Além do acesso à internet, a tecnologia pode viabilizar serviços críticos como telemedicina, educação a distância e monitoramento de desastres naturais, ampliando o impacto social das operadoras. A capacidade de oferecer voz e dados em áreas isoladas pode reduzir a exclusão digital e impulsionar o desenvolvimento econômico local.

Entretanto, a consolidação da constelação de satélites ainda depende de lançamentos bem‑sucedidos, aprovação de licenças orbitais e da capacidade de manter os satélites operacionais por longos períodos. Qualquer atraso nesse processo pode postergar a expansão nacional prevista para 2028.

Em resumo, o acordo entre Brisanet, Unifique, Iez! Telecom e AST SpaceMobile representa um marco importante na jornada da conectividade brasileira. Os próximos dois anos serão decisivos para validar a tecnologia, ajustar o modelo de negócios e definir se a internet via satélite será, de fato, a solução que faltava para levar banda larga a todos os cantos do país.

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