Os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam como mudou o perfil de arrecadação das campanhas presidenciais entre 2022 e 2026, destacando diferenças marcantes entre os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Até 20 de outubro de 2026, as informações apontam para estratégias distintas de captação de recursos, refletindo tanto a ampliação da base de pequenos doadores quanto a concentração de grandes aportes.
Perfil de arrecadação de Flávio Bolsonaro em 2026
Flávio Bolsonaro recebeu, até a data citada, R$ 36,9 milhões de 727 doadores, o que indica uma média de aproximadamente R$ 50 mil por contribuinte. Apesar de o número de apoiadores ser relativamente baixo, a maior parte dos recursos provém de poucos indivíduos que fizeram doações superiores a R$ 100 mil.
Entre os 727 doadores, 93 contribuíram com valores acima de R$ 100 mil, representando apenas 13% do total, mas respondendo por 84,3% da arrecadação. Quando incluídos os 177 doadores que doaram entre R$ 10 mil e R$ 99.999, o grupo passa a concentrar 98,1% dos recursos.
A lista a seguir mostra a distribuição dos doadores por faixa de valor:
- Mais de R$ 100 mil: 93 doadores – 84,3% da arrecadação
- Entre R$ 10 mil e R$ 99.999: 177 doadores – 13,8% da arrecadação
- Entre R$ 100 e R$ 9.999: 457 doadores – 1,9% da arrecadação
- Menos de R$ 100: 119 doadores – 0,1% da arrecadação
A maior doação individual registrada foi um PIX de R$ 1,8 milhão, efetuado pelo fazendeiro Wilson Francisco Rotta em 20 de outubro. Outra contribuição de destaque veio do prefeito Walter Schlatter (PP), que doou R$ 300 mil em 1º de setembro, já tendo contribuído com R$ 100 mil na campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
O ritmo de arrecadação também mudou: entre 5 e 20 de outubro, Flávio recebeu R$ 30,1 milhões em 654 doações, o equivalente a 81% do total acumulado até então, indicando uma explosão de aportes nos dias que antecedem o segundo turno.
Evolução do financiamento de Lula entre 2022 e 2026
Lula ampliou significativamente sua base de pequenos doadores. Até 20 de outubro de 2026, o candidato arrecadou R$ 1,88 milhão de 571 doadores, o que eleva a média de contribuição para cerca de R$ 3 mil, muito abaixo dos R$ 21,1 mil médios de 2022.
Em 2022, apenas oito pessoas doaram R$ 100 mil ou mais, respondendo por 70% do total arrecadado de pessoas físicas. Em 2026, esse número caiu para um único doador, que representou 27% da arrecadação corrente.
Os números abaixo ilustram a mudança na distribuição das doações:
- 2022 – 8 doadores > R$ 100 mil: 70% da arrecadação
- 2026 – 1 doador > R$ 100 mil: 27% da arrecadação
- Doadores totais 2022: 120
- Doadores totais 2026: 571
Além da diversificação, a temporalidade das doações também se alterou. Enquanto 94% dos recursos de Lula foram recebidos até o primeiro turno (4 de outubro), a campanha de Flávio concentrou a maior parte dos aportes após essa data, refletindo estratégias de mobilização diferentes.
Comparativo com a campanha de Jair Bolsonaro em 2022
A campanha de Jair Bolsonaro em 2022 ficou marcada por um volume massivo de pequenas doações via PIX. Foram 241,6 mil transferências de exatamente R$ 1, representando 62% do total de 391,7 mil doações diretas.
A mediana das doações foi de R$ 1, enquanto a média ficou em R$ 225. Apesar da quantidade, os pequenos doadores responderam por apenas 2,2% dos recursos arrecadados, evidenciando uma forte concentração nos grandes aportes.
Os doadores que contribuíram com R$ 10 mil ou mais somaram 1.585 pessoas, mas foram responsáveis por 82,4% da arrecadação. A maior doação individual foi de R$ 3 milhões, feita por Fabiano Campos Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro.
Segue um resumo da estrutura de arrecadação de Jair Bolsonaro em 2022:
- Doações de R$ 1 (PIX): 241,6 mil – 62% do total
- Doações entre R$ 100 e R$ 9.999: maioria dos pequenos contribuintes
- Doações acima de R$ 10 mil: 1.585 doadores – 82,4% da arrecadação
- Maior aporte individual: R$ 3 milhões
Impactos e tendências para o futuro do financiamento eleitoral
Os dados apontam para duas tendências distintas. Primeiro, a estratégia de ampliar a base de pequenos doadores, como adotada por Lula, pode reduzir a dependência de grandes financiadores e ampliar o engajamento popular. Segundo, a concentração de recursos em poucos doadores, prática observada na campanha de Flávio Bolsonaro, pode gerar maior vulnerabilidade a pressões externas e questionamentos de transparência.
Além disso, o uso do PIX como ferramenta de microdoações demonstra que a tecnologia pode democratizar o acesso à política, mas também cria desafios de monitoramento, já que milhares de transações de R$ 1 podem ser difíceis de rastrear individualmente.
Para os próximos pleitos, espera‑se que os partidos e candidatos invistam em plataformas digitais que facilitem tanto micro‑doações quanto grandes aportes, equilibrando eficiência operacional e compliance com a legislação eleitoral.
Em síntese, a comparação entre 2022 e 2026 revela que o panorama do financiamento de campanhas está em plena transformação, refletindo mudanças de comportamento dos eleitores, inovações tecnológicas e estratégias de captação adaptadas a diferentes perfis de candidatos.








