Na quinta‑feira, 22 de outubro, a Polícia Civil do Rio de Janeiro realizou uma operação contra uma clínica de estética localizada em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A ação visa investigar a prática de procedimentos cirúrgicos sem registro profissional, que teriam causado complicações graves em diversas pacientes. O caso ganhou destaque na mídia local após denúncias de dores intensas, lesões corporais e até suspeita de uso indevido de medicamentos controlados.
Investigação e apreensão de medicamentos controlados
Os agentes iniciaram a investigação após receberem uma denúncia anônima que apontava irregularidades no funcionamento da clínica. No início do mês, durante a primeira batida, foram apreendidas 16 ampolas de um sedativo de controle rigoroso, utilizado para anestesiar pacientes durante intervenções estéticas. A presença desse medicamento sem a devida licença levantou suspeitas sobre a prática de sedação inadequada e potencial risco à vida dos clientes.
Além da apreensão, a polícia coletou registros de conversas em grupos de WhatsApp e Instagram, onde o estabelecimento anunciava o tão prometido “bumbum de ouro”. As publicações mostravam antes e depois de procedimentos, prometendo resultados rápidos e sem dor, embora relatos posteriores indicassem o contrário. A investigação também identificou que o nome de um profissional registrado foi usado como responsável técnico sem sua autorização.
Depoimentos das vítimas e riscos dos procedimentos
Uma das pacientes contou que foi submetida a um “hidrolifting”, técnica que consiste na retirada de gordura abdominal e sua aplicação nos glúteos. Segundo o relato, a intervenção foi realizada por uma profissional que ainda não havia concluído a formação em cirurgia plástica. Durante o procedimento, a mulher recebeu sedativos e chegou a desmaiar três vezes, conforme descreveu em mensagem enviada ao grupo de clientes.
Outro caso relatado envolveu dores intensas e nódulos na região dos glúteos após a aplicação de preenchimento com gordura. O exame de corpo de delito confirmou lesões corporais, evidenciando que o procedimento não foi realizado de forma segura. Uma das vítimas chegou a comparar a dor sentida com a experiência de parto, afirmando que “doeu muito mais do que quando tive minha filha”.
Os relatos coletados pelos investigadores revelam um padrão de negligência: uso de técnicas invasivas sem supervisão médica, administração de sedativos sem monitoramento adequado e falta de consentimento informado. As vítimas também relataram falta de acompanhamento pós‑procedimento, o que agravou o quadro de inflamação e infecção.
Responsabilidade legal e desdobramentos da operação
Com base nas evidências reunidas, os investigadores apontam diversas tipificações penais para os responsáveis. Entre os crimes possíveis estão: exercício ilegal da medicina, lesão corporal, exposição da vida ou saúde de terceiros a perigo, falsidade documental e infrações contra as relações de consumo. Cada um desses delitos traz penas que podem variar de dois a oito anos de reclusão, além de multas e proibição de exercer atividades no setor de saúde.
- Exercício ilegal da medicina
- Lesão corporal
- Exposição da vida ou saúde a perigo
- Falsidade documental
- Crimes contra as relações de consumo
O responsável técnico que teve seu nome usado indevidamente também será ouvido. Em depoimento, ele negou ter autorizado a utilização de seu registro e carimbo, o que pode configurar crime de falsidade ideológica. Caso seja comprovado que o nome foi usado para dar aparência de legalidade ao estabelecimento, ele poderá responder por complicidade.
A operação resultou na interdição da clínica e na apreensão de equipamentos médicos, documentos falsificados e materiais de divulgação. As autoridades ainda estão analisando a possibilidade de expandir a investigação para outras clínicas da região que possam estar envolvidas em práticas semelhantes, reforçando a necessidade de fiscalização rigorosa no setor de estética.
Especialistas em saúde pública alertam que o crescimento desenfreado de clínicas de estética, muitas vezes operando sem a devida qualificação, representa um risco crescente para a população. Eles recomendam que os consumidores verifiquem a regularidade dos profissionais, exijam documentos de habilitação e busquem referências antes de se submeter a procedimentos invasivos.
Enquanto o caso segue em fase de instrução, a comunidade de Nova Iguaçu acompanha o desdobramento com preocupação. A expectativa é que a ação policial sirva de exemplo para coibir práticas ilegais e proteger os direitos dos pacientes, que muitas vezes são seduzidos por promessas de resultados imediatos e preços atrativos.








