Em entrevista ao programa Ponto de Vista, da revista VEJA, o diretor de análise política da AtlasIntel, Yuri Sanches, alertou que o eleitor ainda pode mudar de opinião nas horas que antecedem a votação, gerando movimentos que escapam às pesquisas tradicionais. A declaração foi feita na última semana, em São Paulo, durante a cobertura da reta final da disputa presidencial. O especialista destacou que essas alterações de voto podem ocorrer até poucas horas antes da urna ser fechada.
A volatilidade do eleitor na reta final
Segundo Sanches, o período de coleta das pesquisas encerra-se dias antes da eleição, mas isso não significa que o comportamento do eleitor esteja totalmente definido. Ele pode reconsiderar a escolha no dia anterior ou até mesmo nas últimas horas de campanha, quando novas informações surgem. Essa flexibilidade tem se tornado um ponto crítico em eleições marcadas por margens estreitas.
O diretor da AtlasIntel observou que, ao longo de ciclos eleitorais anteriores, a decisão de eleitores indecisos tem sido decisiva para o resultado final. Ele explicou que o cansaço e a saturação de notícias podem gerar um efeito de “anestesia” no eleitorado, reduzindo a sensibilidade a novos escândalos ou propostas.
Fatores que influenciam a mudança de voto
Vários elementos podem entrar no cálculo do eleitor indeciso nas horas finais. Entre eles, destacam‑se:
- Abertura de sigilos e vazamentos de informações sobre candidatos;
- Denúncias de corrupção ou investigações em curso;
- Propostas de políticas públicas apresentadas pelos candidatos;
- Campanhas de ataque ou defesa realizadas nas redes sociais.
Entretanto, Sanches acredita que a sucessão de denúncias pode ter um efeito limitado. “O eleitor até aqui já chega bastante cansado e bastante anestesiado”, afirmou, sugerindo que a sobrecarga de escândalos pode até afastar eleitores da urna, ao invés de mudar seu voto.
As propostas de governo também desempenham papel importante. Medidas anunciadas pelo atual presidente Lula, por exemplo, foram avaliadas positivamente por parte do eleitorado, mas encontraram resistência entre aqueles que as associam a estratégias eleitorais ou a preocupações fiscais.
Para convencer esses eleitores, o governo precisa demonstrar que as políticas têm objetivo populista e não meramente eleitoral. Essa comunicação eficaz pode ser decisiva na reta final, quando a indecisão ainda é alta.
Eleitores‑chave e cenários de decisão
Um segmento pequeno, porém crucial, do eleitorado ainda não consolidou sua escolha. Sanches citou eleitores que apoiaram candidatos de terceira via ou que se abstiveram nas primeiras rodadas. Esse grupo pode ser decisivo em uma disputa apertada.
Um exemplo mencionado foi o caso de Renan Santos, rotulado como “eleitor chave”. Segundo o analista, Santos apresenta aversão a Lula maior que a rejeição a Flávio Bolsonaro. Ataques da campanha de Flávio, especialmente por Pablo Marçal, contra Santos e sua militância, poderiam virar o voto desse eleitor para longe de Lula, não como apoio a Flávio, mas como forma de punição.
Esses movimentos de voto de última hora ilustram como a dinâmica comportamental pode mudar rapidamente. Sanches ressaltou que, embora as pesquisas tentem capturar essas variações, elas nunca eliminam completamente o fator humano.
Ele concluiu que a possibilidade de alteração de opinião em um intervalo muito curto permanece como um dos elementos a serem considerados na reta final da disputa. “Como somos todos humanos, essa variação pode sim acontecer”, disse.
Além dos fatores já citados, outros elementos podem influenciar o eleitor indeciso:
- Debates televisivos que trazem novas argumentações;
- Visitas de candidatos a regiões estratégicas;
- Endossos de figuras públicas ou lideranças locais;
- Eventos climáticos ou logísticos que afetam a mobilidade no dia da votação.
Essas variáveis, combinadas com a exaustão informacional, criam um cenário de alta volatilidade. O diretor da AtlasIntel recomenda que campanhas monitorem de perto as reações nas redes sociais nas últimas 48 horas, pois esses indicadores podem sinalizar mudanças de tendência.
Outra estratégia apontada por especialistas é a realização de micro‑pesquisas de rua ou de aplicativos de engajamento, que podem captar rapidamente alterações de intenção de voto. Embora menos robustas que as grandes sondagens, elas fornecem dados quase em tempo real.
Em resumo, a reta final de uma eleição não é apenas um momento de consolidação de tendências, mas também de potencial reviravolta. O eleitor ainda tem margem para mudar de opinião, e essa flexibilidade pode surpreender as previsões mais consolidadas.
Para os candidatos, isso significa que a batalha não termina com o encerramento das pesquisas oficiais. Cada discurso, cada entrevista e cada ação de campanha nas últimas horas pode ter peso decisivo.
Por fim, Sanches reforçou a importância de entender o eleitor como um ser complexo, sujeito a emoções, cansaço e influências externas. Ignorar esse aspecto pode levar a avaliações equivocadas sobre o resultado final.
Assim, a mensagem central é clara: nas horas finais, o eleitor ainda tem poder de mudar o rumo da disputa, e as campanhas precisam estar preparadas para responder a esse dinamismo.








