Um primata noturno, o loris‑lento‑de‑Bangka (Nycticebus bancanus), foi confirmado vivo na ilha de Bangka, na Indonésia, após quase noventa anos sem registros oficiais. Entre 2015 e 2025, equipes do Centro de Resgate de Vida Selvagem Alobi salvaram mais de noventa indivíduos, provando que a espécie ainda persiste na natureza. O achado impulsiona uma revisão urgente do status da espécie na Lista Vermelha da IUCN.
Descobertas e resgates recentes
O levantamento realizado pelos pesquisadores do Alobi Wildlife Rescue Center mostrou que, ao longo de uma década, foram localizados loris‑lentos em diferentes áreas da ilha, desde florestas remanescentes até periferias urbanas. Cada resgate foi documentado com fotos, dados de GPS e análises de saúde dos animais, permitindo um mapeamento detalhado da distribuição atual da espécie.
Dos noventa indivíduos encontrados, oitenta e seis recuperaram-se completamente após tratamento veterinário e foram devolvidos à liberdade em sete áreas florestais protegidas. O restante ainda está sob cuidados, aguardando reabilitação ou sendo monitorado em centros de conservação.
Os dados coletados revelam que a maioria dos avistamentos ocorreu em assentamentos humanos, margens de rodovias ou em cativeiros ilegais. Essa proximidade com a presença humana evidencia a pressão crescente sobre o habitat natural do loris‑lento‑de‑Bangka.
Características únicas e ameaças
Os loris‑lentos são os únicos primatas venenosos do mundo. Cada indivíduo possui uma pequena zona sem pelos sob o braço que produz um óleo. Quando ameaçado, o animal lambe esse óleo, que se mistura à saliva, formando um veneno capaz de paralisar ou matar pequenos artrópodes e mamíferos.
Arborícolas por natureza, esses primatas passam a maior parte do tempo nas copas das árvores, usando cipós e folhas para se deslocar. Só descem ao solo para necessidades básicas, como defecar, o que os torna vulneráveis a predadores terrestres e a incidentes humanos.
As principais causas de lesões e mortalidade entre os indivíduos resgatados foram:
- Choques elétricos em fiações de baixa tensão.
- Queimaduras provocadas por incêndios florestais ou queima de resíduos agrícolas.
- Atos de agressão de cães domésticos.
- Captura e comércio ilegal para o mercado de animais exóticos.
A perda acelerada de habitat, impulsionada pela mineração ilegal de estanho e pelo desmatamento para plantações de dendezeiros (óleo de palma), tem reduzido drasticamente as áreas florestais nativas. Essa fragmentação força os loris‑lentos a buscar alimento e refúgio em áreas antropizadas, aumentando o risco de conflitos com humanos.
Perspectivas de conservação e próximos passos
Especialistas defendem a remoção imediata do selo “possivelmente extinta” da classificação da IUCN, substituindo‑o por uma categoria que reflita a situação crítica, mas ainda existente, da espécie. A proposta inclui a criação de programas formais de conservação, monitoramento populacional e reprodução em cativeiro.
O pesquisador Timon Glaw, coautor do estudo, enfatiza que o primeiro passo – provar a existência da espécie – abre caminho para iniciativas mais amplas. “Precisamos de um plano de conservação permanente, que combine pesquisas genéticas, estudos de densidade populacional e proteção rigorosa das florestas remanescentes”, declarou.
Entre as ações recomendadas estão:
- Estabelecimento de corredores ecológicos entre fragmentos florestais.
- Implementação de patrulhas anti‑caça e anti‑tráfico nas áreas de risco.
- Educação ambiental nas comunidades locais, destacando a importância do loris‑lento para o ecossistema.
- Financiamento internacional para projetos de restauração de habitat.
Langka Sani, diretor da Fundação Alobi, ressaltou que o apoio global é essencial para garantir a sobrevivência a longo prazo do loris‑lento‑de‑Bangka. “O ecossistema original da ilha encolheu significativamente, e sem recursos externos, será impossível reverter o processo de degradação”, afirmou.
Além das medidas de proteção direta, os cientistas recomendam a realização de estudos de longo prazo sobre a genética da população, a fim de identificar possíveis problemas de consanguinidade e orientar programas de manejo reprodutivo. A colaboração entre universidades, ONGs e órgãos governamentais será crucial para criar uma rede de monitoramento eficaz.
Em resumo, a redescoberta do loris‑lento‑de‑Bangka representa um marco importante para a conservação da biodiversidade da Indonésia. Contudo, o caminho à frente requer esforços coordenados, financiamento adequado e engajamento das comunidades locais para garantir que esta espécie única não desapareça novamente.








