Na manhã da última quarta‑feira (21), a Polícia Civil realizou uma operação em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, visando uma clínica de estética vinculada ao Grupo de Saúde Celita Toledo. A ação resultou na interdição dos centros cirúrgicos e na apreensão de documentos, após a constatação de três óbitos e mais de duas dúzias de denúncias de deformidades.
Operação policial e interdição
A força policial chegou ao local cumprindo mandados de busca e apreensão emitidos pelos tribunais. Os agentes encontraram equipamentos médicos, prontuários e materiais de uso descartável, alguns fora da validade, que foram imediatamente recolhidos.
Segundo o delegado responsável, a investigação apontou que procedimentos eram realizados por alunos de pós‑graduação em cirurgia plástica sem a supervisão de um médico credenciado. Essa prática violou normas sanitárias e éticas, configurando exercício ilegal da medicina.
Os centros cirúrgicos foram fechados até que novas inspeções sejam concluídas. A interdição inclui a proibição de agendamento de novos procedimentos, bem como a suspensão de todas as atividades de atendimento ao público.
Casos de mortes e complicações
Entre as vítimas, destaca‑se o caso de Jéssica Conceição da Cruz, de 34 anos, que realizou múltiplos procedimentos – remodelamento costal, lipoaspiração e abdominoplastia – em 14 de julho. Ela desembolsou R$ 12,8 mil pelos serviços e, após as cirurgias, ficou internada por dois meses com dor intensa e febre.
Jéssica acabou falecendo em 19 de setembro, vítima de peritonite fecal causada por perfuração intestinal, complicação diretamente ligada à cirurgia. O laudo médico apontou falhas graves na técnica cirúrgica e na condução pós‑operatória.
Além desse caso, a clínica recebeu 25 denúncias formais de pacientes que relataram deformidades, mutilações e sequelas permanentes. As queixas variam de assimetrias faciais a perda de sensibilidade em membros operados.
- Deformidades visíveis em áreas tratadas
- Mutilações decorrentes de cortes inadequados
- Sequelas permanentes como neuropatias
Os relatos foram encaminhados ao Conselho Regional de Medicina, que já abriu procedimento ético‑disciplinar contra os responsáveis.
Repercussões e investigações
A proprietária da rede, Celita Toledo, candidata ao Congresso pela sigla Republicanos, ainda não foi eleita, mas enfrenta intenso escrutínio público. Embora não tenha sido detida, ela foi intimada a prestar esclarecimentos à justiça.
Em agosto, outra operação na mesma clínica resultou na apreensão de produtos farmacêuticos vencidos, o que reforça a suspeita de negligência administrativa.
Especialistas em saúde estética alertam que a falta de supervisão médica pode gerar complicações graves, sobretudo quando procedimentos invasivos são realizados por profissionais em formação.
O Ministério da Saúde prometeu intensificar fiscalizações em estabelecimentos que oferecem serviços estéticos, visando coibir práticas irregulares e proteger o consumidor.
Enquanto isso, pacientes e familiares continuam buscando reparação judicial, alegando danos morais e materiais. Advogados especializados em direito do consumidor apontam que o caso pode estabelecer precedentes importantes para a regulação do setor.
O caso também reacendeu o debate sobre a necessidade de regulamentação mais rígida para cursos de especialização em cirurgia plástica, que atualmente permitem a prática supervisionada em ambientes clínicos.
Autoridades de defesa do consumidor reforçam que o cidadão deve exigir a apresentação de documentos que comprovem a qualificação do profissional antes de qualquer procedimento invasivo.
Com a interdição, a clínica tem suas atividades suspensas e os pacientes que já haviam agendado cirurgias foram orientados a procurar outras unidades credenciadas pelo Conselho Regional de Medicina.
O desfecho da operação ainda está em fase de análise, mas a expectativa é que novas medidas sejam adotadas para prevenir ocorrências semelhantes em outras regiões do país.








