A Unidade Básica de Saúde Jardim Colombo, na zona oeste de São Paulo, oferece sessões de terapia em grupo para pessoas que enfrentam o luto. Desde dezembro de 2023, a psicóloga Pamella Becegati conduz encontros que utilizam música, narrativas e objetos simbólicos para apoiar o processo de superação da perda. O objetivo é transformar a dor em energia criativa e promover o reencontro com a própria felicidade.
A abordagem terapêutica baseada em música e simbolismo
Nas reuniões, os participantes são convidados a escolher uma canção que represente seus sentimentos mais profundos. Wellington Barreto, de 25 anos, escolheu “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes, para comunicar à psicóloga seu desejo de se reencontrar. A escolha musical funciona como ponto de partida para a reflexão, permitindo que cada pessoa identifique pensamentos, memórias e emoções associadas à melodia.
A psicóloga utiliza perguntas direcionadas, como “Qual foi o primeiro pensamento que surgiu ao ouvir a música?” e “Que lembranças ela trouxe à tona?”. Essa técnica estimula a verbalização de sentimentos que muitas vezes permanecem ocultos, facilitando a elaboração do luto. Além da música, objetos como pinhas de eucalipto são distribuídos para que os participantes explorem sensorialmente o que está dentro de si.
Depoimentos de quem vive a experiência
Wellington relata que, antes de entrar no grupo, vivia um isolamento intenso, trancado no quarto e sem compartilhar a dor com a família. “Aqui encontrei afeto e passei a enxergar a vida de novo”, afirma. Depois de quatro meses de encontros, ele consegue reviver momentos com as tias e o amigo falecido sem ser dominado por crises de ansiedade.
Massumi Hirota Tunkus, 65, perdeu o marido há 18 anos e só agora encontrou espaço para o luto ao participar do grupo. Ela descreve o processo como “uma família que não recrimina”, destacando que o apoio coletivo permite que cada um reconheça sua própria dor sem julgamento. A sensação de estar no mesmo barco fortalece a resiliência de todos.
Solange Maria de Assunção Modesto, 61, ainda sente o vazio deixado pela irmã que faleceu após um transplante de medula óssea. As dinâmicas de grupo, como segurar pinhas e refletir sobre seu interior, ajudam-na a encontrar liberdade e paz interior. “A troca de experiências dá uma força que eu não tinha antes”, comenta.
Como funciona o acompanhamento nas UBS de São Paulo
O Ministério da Saúde reconheceu em 2022 o luto prolongado como transtorno mental, o que ampliou a oferta de serviços psicológicos nas unidades de saúde. Na prática, quem precisa de apoio pode buscar a UBS de referência e escolher entre atendimento individual ou em grupo, dependendo da gravidade do caso.
Nas sessões de grupo, a equipe multiprofissional inclui psicólogos, assistentes sociais e, em alguns casos, enfermeiros. A assistente social realiza os encaminhamentos necessários para a rede municipal, garantindo que o paciente tenha acesso a terapias complementares, como oficinas de arte ou grupos de apoio específicos.
Os encontros seguem um roteiro estruturado que inclui:
- Apresentação da música ou objeto simbólico escolhido.
- Roda de conversa para compartilhar emoções e memórias.
- Dinâmicas sensoriais que estimulam a autorreflexão.
- Encerramento com estratégias práticas para lidar com a ansiedade no dia a dia.
Essa sequência permite que os participantes desenvolvam habilidades de autocuidado, reconheçam gatilhos de ansiedade e construam redes de apoio mútuo. O ambiente é mantido confidencial e acolhedor, incentivando a expressão livre sem medo de julgamento.
Além das sessões presenciais, a UBS oferece materiais de apoio online, como podcasts sobre luto saudável e guias de meditação guiada. Essa integração digital amplia o alcance da terapia, permitindo que quem não pode comparecer presencialmente ainda receba orientação profissional.
Os resultados observados nas primeiras turmas são animadores: redução significativa dos sintomas de ansiedade, maior engajamento em atividades cotidianas e relatos de melhora na qualidade de sono. Os profissionais destacam que a combinação de música, narrativa e objetos simbólicos cria um espaço de cura coletivo que vai além da terapia tradicional.
Para quem ainda tem dúvidas, a Secretaria Municipal de Saúde recomenda marcar uma consulta inicial na UBS mais próxima. O primeiro contato serve para avaliar a necessidade de acompanhamento individual ou em grupo, e a partir daí o paciente é inserido no programa que melhor se adequa ao seu estágio de luto.








