Um estudo do Observatório do Clima revelou que o novo Congresso eleito para 2027 apresenta o pior perfil ambiental da história recente, com a maioria dos parlamentares alinhados pouco ou nada à agenda socioambiental. A análise, publicada em junho de 2026, considerou a composição das duas casas legislativas e utilizou o Índice de Convergência Ambiental. O cenário se desenrola em um Brasil cada vez mais vulnerável a secas, enchentes, incêndios e ondas de calor.
Como foi construído o Índice de Convergência Ambiental
A metodologia parte do Índice de Convergência Ambiental, criado pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade. O índice mensura o grau de alinhamento dos votos e das propostas dos parlamentares com a pauta de clima e meio ambiente. Para facilitar a leitura, o resultado foi dividido em quatro faixas de desempenho.
- Muito baixa: 0 a 25%
- Baixa: 26 a 50%
- Boa: 51 a 69%
- Muito boa: 70 a 100%
Além do cálculo numérico, a pesquisa incluiu a análise do histórico de atuação de cada parlamentar em cargos anteriores, projetos de lei apresentados e posicionamentos públicos sobre questões ambientais.
Distribuição do perfil ambiental entre Senado e Câmara
No Senado, a situação é ainda mais crítica. De 81 senadores, 64 (79%) ficaram nas faixas baixa ou muito baixa, indicando um alinhamento fraco com a agenda climática. Esse número representa um aumento em relação à legislatura anterior, quando 71,6% dos senadores estavam nas mesmas faixas.
Entre os deputados federais, 67,3% (aproximadamente 400 deputados) foram classificados como baixa ou muito baixa. Contudo, a Câmara tem uma proporção maior de parlamentares nas faixas boa ou muito boa, representando 32,7% das cadeiras, contra 21% no Senado.
O estudo aponta que o crescimento de partidos de extrema direita, como o Partido Liberal (PL), foi decisivo para essa deterioração. O PL passou de 15 para 28 cadeiras no Senado, elevando sua participação de 18,5% para 34,6%.
Riscos de retrocessos na política ambiental
Com a maioria dos parlamentares em faixas baixa ou muito baixa, o risco de retrocessos legislativos aumenta consideravelmente. Entre os cenários mais preocupantes estão o enfraquecimento dos órgãos de fiscalização ambiental, a aprovação de leis que favoreçam grileiros e a redução da proteção a florestas e biomas.
Essas mudanças podem gerar um efeito cascata: menos fiscalização leva a mais desmatamento, o que por sua vez intensifica as mudanças climáticas, alimentando eventos extremos como secas prolongadas e enchentes violentas.
Além disso, a falta de apoio legislativo pode comprometer programas de adaptação, como a expansão de sistemas de alerta precoce e investimentos em infraestrutura resiliente.
Impactos desproporcionais nas populações vulneráveis
Os efeitos de um Congresso menos comprometido com o meio ambiente não são distribuídos de forma igual. As comunidades mais pobres, que já enfrentam desigualdades históricas, são as primeiras a sentir as consequências de eventos climáticos extremos.
Segundo o UNICEF, 40 milhões de crianças e adolescentes no Brasil vivem expostos a pelo menos um risco climático. Essa população tem menos recursos para se proteger e sofre impactos que vão da saúde respiratória à segurança alimentar.
O Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) destaca a necessidade de medidas concretas: escolas preparadas para eventos extremos, planos de contingência municipais, ações de combate ao calor intenso e ampliação do acesso à água tratada e saneamento básico.
Quando 79% dos senadores e 67,3% dos deputados apresentam baixa convergência ambiental, a capacidade do Estado de implementar essas políticas diminui drasticamente, ampliando a vulnerabilidade de quem já está à margem.
Em resumo, o estudo do Observatório do Clima sinaliza um alerta vermelho para a política ambiental brasileira. A composição do Congresso de 2027 pode determinar se o país avançará na luta contra a crise climática ou se retrocederá, aprofundando desigualdades e colocando em risco gerações futuras.








