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Líder de culto no Quênia condenado por morte de quase 200 crianças em jejum forçado

Em julho de 2023, a justiça queniana proferiu um veredicto que chocou a opinião pública: Paul Mackenzie, fundador da seita apocalíptica conhecida como Ministérios Internacionais da Boa Nova, foi considerado culpado pelo assassinato de 191 pessoas, a maioria crianças, após ordenar um jejum mortal. O julgamento ocorreu na cidade portuária de Mombasa, onde a juíza Diana Mochache descreveu o culto como uma “porta‑voz de Jesus” que conduzia seguidores a atos extremos.

Julho de 2023: o julgamento que chocou o Quênia

O processo durou oito horas intensas, com depoimentos que revelaram detalhes perturbadores. Mackenzie e 27 outros líderes foram condenados por assassinato, apesar de todas as defesas alegarem inocência e negar coação. A juíza destacou que os acusados acreditavam ser instrumentos divinos, justificando a prática do jejum até a morte como caminho para a salvação.

Durante a sessão, um dos réus relatou que Mackenzie instruía que quem resistisse ao jejum deveria ser “forçado a ir para o céu com socos e pontapés”. Essa violência institucionalizada foi confirmada por testemunhas que viram crianças amarradas, privadas de alimentação e água, e deixadas para morrer em covas rasas na floresta de Shakahola.

Doutrinas extremas e a prática do jejum mortal

A doutrina da seita proibía a educação formal e a medicina moderna, rotulando-as como “malignas”. Em vez disso, os seguidores eram compelidos a viver em isolamento, subsistindo apenas de promessas espirituais. A prática do jejum forçado foi aplicada não só a crianças, mas também a adultos, inclusive a uma mulher grávida que foi proibida de amamentar seu recém‑nascido, que morreu em apenas 12 dias.

Os rituais de sepultamento eram descritos como “casamentos” com Jesus, onde os corpos eram homenageados como se tivessem se unido ao Messias. Essa linguagem simbólica servia para legitimar a violência e encobrir o crime sob a capa de devoção religiosa.

Testemunhos de sobreviventes e dos escavadores

Stephen Mwiti, que perdeu seis filhos na floresta, compareceu ao tribunal emocionado, segurando uma foto de família. Ele declarou: “Sou um homem feliz por todas as pessoas terem sido condenadas”. Seu relato pessoal trouxe à tona a dimensão humana da tragédia, que vai além das estatísticas.

Escavadores contratados para desenterrar os corpos relataram cenas de horror: covas rasas contendo três ou mais cadáveres, mãos e pés amarrados, corpos enrolados em lençóis. James, um dos trabalhadores, contou que recebeu apenas US$ 8 por dia para abrir as sepulturas, enquanto Salim Karisa descreveu a logística secreta que levava vítimas à floresta em motocicletas.

  • Mais de 400 corpos foram encontrados na região de Shakahola.
  • As vítimas incluíam crianças de poucos dias de vida.
  • Os escavadores eram em sua maioria moradores da cidade próxima, pagos com salários irrisórios.

Esses depoimentos evidenciam não só a brutalidade do ato, mas também a exploração econômica dos mais vulneráveis, que foram remunerados com valores simbólicos para encobrir um crime de massa.

Repercussões legais e o futuro das vítimas

Além das condenações por assassinato, Mackenzie e outros líderes enfrentam processos por terrorismo, radicalização e negação de direitos à educação. A sentença está marcada para 6 de novembro, quando o tribunal determinará a pena que pode incluir prisão perpétua.

O caso também gerou debate sobre a necessidade de regulamentar grupos religiosos no Quênia, reforçando a importância de mecanismos de proteção à infância e à saúde pública. Organizações de direitos humanos pedem vigilância mais rigorosa e apoio às famílias das vítimas, que ainda lidam com o trauma e a perda.

O governo anunciou a criação de um fundo de assistência às famílias enlutadas, bem como programas de reintegração para os sobreviventes que foram retirados da seita. A iniciativa inclui apoio psicológico, escolarização e acompanhamento médico, buscando reparar, ainda que parcialmente, o dano causado.

Enquanto a sociedade queniana processa o choque, especialistas apontam que o caso serve como alerta global sobre os perigos de cultos extremistas que manipulam crenças para fins de controle e violência. A combinação de doutrinas apocalípticas, isolamento e liderança carismática pode gerar ambientes propícios a abusos graves, exigindo vigilância constante das autoridades e da comunidade.

Em resumo, o veredicto contra o líder da seita apocalíptica representa um marco histórico na luta contra abusos religiosos no Quênia. A condenação demonstra que a justiça pode alcançar até os casos mais sombrios, oferecendo, ao menos, algum consolo às famílias que perderam seus filhos em uma tragédia evitável.

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