Na manhã de 19 de junho de 2026, a Polícia Federal prendeu quatro indivíduos em uma ação coordenada com autoridades da Suíça e da Espanha, desmantelando uma quadrilha que há vinte anos traficava ovos de aves silvestres do Brasil. A operação ocorreu simultaneamente em Curitiba, na cidade suíça de Weinfelden e na ilha de Gran Canaria, nas Ilhas Canárias.
Operação Ninho Vazio: desdobramentos
A ação, denominada Operação Ninho Vazio, contou com três frentes simultâneas. No território nacional, agentes cumpriram dois mandados de prisão temporária e três de busca e apreensão, apreendendo ossadas, animais empalhados e documentos que revelaram a estrutura do crime.
Na Suíça, o Departamento Federal de Alfândega e Segurança de Fronteiras realizou buscas em Weinfelden, local onde a mulher suíça acusada de transportar os ovos foi identificada. Ela foi incluída na Difusão Vermelha da Interpol, alerta internacional para foragidos.
Já em Gran Canaria, a Polícia Nacional espanhola, apoiada por mandados de prisão preventiva emitidos pela justiça brasileira, capturou dois dos principais líderes do esquema. As autoridades espanholas encaminharam os detidos para o Brasil, onde responderão pelos crimes investigados.
O tráfico de ovos de aves silvestres no Brasil
A investigação teve início em outubro de 2025, quando 24 ovos de aves silvestres foram encontrados ocultos na roupa de uma passageira no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. A descoberta desencadeou uma análise de padrões de viagem que apontou para rotas curtas e frequentes dentro do país.
O esquema estava organizado em quatro núcleos operacionais, conforme descrito nos autos:
- Obtenção dos ovos em áreas de nidificação clandestinas.
- Organização das viagens, incluindo reservas de voos e hospedagens.
- Transporte dos ovos em condições inadequadas, provocando alto índice de mortalidade.
- Recepção e distribuição no exterior, principalmente nas Ilhas Canárias.
Os destinos finais eram criadouros e parques de aves na Espanha, onde os ovos eram comercializados como animais exóticos. Entre as espécies traficadas estavam o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) e o papagaio-charão (Amazona pretrei), ambas consideradas ameaçadas ou quase ameaçadas de extinção.
O papagaio-charão, típico do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, enfrenta risco crítico de desaparecimento. O papagaio-de-cara-roxa, encontrado no litoral de São Paulo e Paraná, também apresenta vulnerabilidade crescente devido à perda de habitat e à captura ilegal.
Impactos ambientais e penas previstas
Os especialistas apontam que a retirada ilegal de ovos compromete a reprodução natural dessas aves, reduzindo drasticamente as chances de recuperação populacional. Além disso, o transporte em condições precárias causou sofrimento intenso e elevada mortalidade dos embriões, configurando maus-tratos.
Os crimes investigados incluem tráfico de animais silvestres, contrabando, maus-tratos e organização criminosa. Caso condenados, os acusados podem receber penas acumuladas de até quinze anos de reclusão, além de multas e proibição de exercer atividades relacionadas à fauna.
A Polícia Federal segue empenhada em mapear a extensão da rede, identificar outros fornecedores, intermediários e compradores, e fortalecer a cooperação internacional para impedir novos embarques ilegais.
Organizações não‑governamentais de conservação celebraram a operação, destacando a importância de ações conjuntas entre países para proteger a biodiversidade brasileira. Elas ressaltam que a repressão ao tráfico deve ser acompanhada de programas de educação ambiental e apoio a comunidades locais.
O caso também reacendeu o debate sobre a necessidade de aprimorar a fiscalização nos aeroportos e de reforçar a legislação que protege espécies ameaçadas. Propostas incluem a criação de um cadastro nacional de embarques suspeitos e a ampliação das sanções para quem se envolver em comércio ilegal de fauna.
Com a divulgação dos resultados, espera‑se que outros grupos criminosos sejam desencorajados, reduzindo a pressão sobre as populações de papagaios e demais psitacídeos. A ação demonstra que a combinação de inteligência policial, cooperação internacional e apoio da sociedade civil pode gerar impactos positivos na conservação da vida silvestre.








