Na manhã da última quarta‑feira, 14 de outubro, a pesquisa Quaest revelou que, entre eleitores evangélicos, Flávio Bolsonaro lidera com 60% das intenções de voto, enquanto Lula alcança apenas 28%. O levantamento, divulgado simultaneamente à carta do presidente aos fiéis, evidencia a crescente disputa entre o PT e o PL para conquistar o bloco religioso nas urnas.
Contexto político e a disputa eleitoral
O cenário eleitoral de 2026 tem sido marcado por uma polarização intensa, sobretudo nas comunidades evangélicas, que historicamente têm se alinhado a candidatos conservadores. Nas últimas eleições, o PT enfrentou dificuldades para se aproximar desse eleitorado, refletindo um afastamento que se aprofundou nos últimos anos.
Com a família Bolsonaro intensificando a narrativa de que seus valores morais coincidem com os pregados por bispos como Silas Malafaia, a estratégia de comunicação dos candidatos ganhou contornos quase religiosos. A pesquisa mostrou que, entre católicos, Lula tem vantagem (49% a 43%), mas entre evangélicos a diferença é ainda maior a favor de Flávio.
A estratégia do PT para o eleitor evangélico
Em resposta ao cenário desfavorável, a campanha de Lula desenvolveu um documento interno que orienta seus aliados a tratar o voto como uma “escolha moral”. O texto recomenda que se repita a frase “votar em Flávio pode ser pecado”, mas sempre como convite à reflexão, nunca como imposição.
Entre os porta‑vozes designados para dialogar com líderes religiosos estão o advogado‑geral da União, Jorge Messias, a senadora evangélica Eliziane Gama (PT‑MA) e o deputado Otoni de Paula (PSD‑RJ). Cada um tem a missão de levar a mensagem ao púlpito, reforçando ações do governo que supostamente beneficiam as famílias cristãs.
- Proibição das apostas online (bets) por meio de medida provisória.
- Fim da escala de trabalho 6×1, permitindo mais tempo para a prática religiosa.
- Programas de assistência social que enfatizam valores familiares.
Na carta enviada aos evangélicos, Lula destacou essas conquistas, afirmando que “para o povo evangélico, isso garante mais tempo para estar na igreja em comunhão com os irmãos e em adoração”. O presidente ainda pediu que os fiéis orem por discernimento antes de decidir seu voto.
Reações e limites legais
O material de campanha do PT alerta que a abordagem deve evitar ameaças ou promessas de castigo espiritual, pois coagir eleitores constitui crime eleitoral. Também proíbe a propaganda dentro de templos e a difusão de informações não verificáveis sobre o adversário.
Especialistas em direito eleitoral ressaltam que a linha entre persuasão moral e coação é tênue. Qualquer discurso que sugira punição divina por votar em determinado candidato pode ser interpretado como violação da Lei nº 9.504/97, que regula a propaganda política.
Enquanto isso, lideranças evangélicas continuam divididas. Alguns pastores, como Malafaia, reforçam a ideia de que os valores de Bolsonaro são compatíveis com a doutrina, enquanto outros, como o bispo Silas, evitam posicionamentos explícitos, preferindo focar em questões sociais.
O debate sobre a influência da religião nas eleições ganha novos contornos, sobretudo após a divulgação da carta de Lula e da estratégia interna do PT. Observadores apontam que o uso de linguagem moral pode mobilizar eleitores, mas também gerar resistência entre aqueles que percebem a política como intrusão no âmbito espiritual.
Em suma, a corrida eleitoral de 2026 demonstra que a disputa por votos evangélicos está longe de ser apenas uma questão de propostas econômicas ou sociais; trata‑se também de narrativas que buscam legitimar escolhas como questões de fé e moralidade.








