A notícia de que Flávio Bolsonaro teria apoiado a retirada de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil ganhou destaque nas redes sociais durante a campanha presidencial de 2022. O boato surgiu na cobertura da Globonews e rapidamente se espalhou, gerando debates acalorados sobre religião e política. A emissora acabou reconhecendo o erro e pedindo desculpas ao público, mas o dano já estava feito.
Origem do rumor e sua amplificação
A jornalista Maria Cristina Fernandes, ao apresentar um segmento na Globonews, mencionou um suposto “movimento na Igreja Católica de reação a evangélicos” que estaria preparando um projeto de lei para retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. Na hora, a informação foi aceita como fato por milhares de internautas, que começaram a compartilhar o conteúdo sem verificar a veracidade.
O que poucos sabiam era que a proposta citada havia sido apresentada em 2007 e arquivada já em 2008, sem qualquer retomada posterior. Mesmo assim, a narrativa foi mantida viva, alimentada por comentários de figuras públicas que viram na controvérsia uma oportunidade de ganhar visibilidade.
Quem ajudou a viralizar a fake news
Um estudo realizado com o software Brandwatch identificou os perfis que mais contribuíram para a disseminação do boato. Em primeiro lugar, a deputada federal Erika Hilton (PSOL‑SP) publicou um post no X que recebeu mais de 40 mil curtidas. Ela reconheceu que a proposta era de 2007, mas alertou que Flávio Bolsonaro poderia reviver o tema, o que acabou reforçando a suspeita entre seus seguidores.
Em segundo lugar, o deputado federal Ivan Valente (PSOL‑SP) reproduziu a informação em sua página do Facebook, obtendo mais de 8 mil curtidas. Valente ainda ironizou o desmentido do candidato do PL, escrevendo que a tentativa de apagar a notícia só aumentou a repercussão.
- Erika Hilton (PSOL‑SP) – post no X, 40 000+ curtidas
- Ivan Valente (PSOL‑SP) – post no Facebook, 8 000+ curtidas
- Outros perfis de esquerda que compartilharam o conteúdo sem checagem prévia
Esses influenciadores políticos aproveitaram a onda de indignação religiosa para reforçar suas posições, sem considerar a necessidade de checar a origem da informação.
O papel da Globo na confusão
A emissora reconheceu que um cuidado básico com a precisão das informações poderia ter evitado toda a controvérsia. Após a constatação do erro, a Globo emitiu um comunicado de retratação, explicando que a proposta de 2007 já estava arquivada e que não havia nenhum projeto em tramitação para retirar a padroeira.
Entretanto, o dano à credibilidade da rede já estava consolidado. A população, já cansada de notícias falsas, passou a desconfiar ainda mais das grandes mídias, o que pode ter impactos duradouros nas próximas eleições.
Consequências para a campanha presidencial
O episódio acabou desviando a atenção dos eleitores dos reais problemas do país, como dívida pública e segurança, para uma discussão sobre símbolos religiosos. Esse desvio de foco pode ter influenciado a percepção dos candidatos, especialmente de Flávio Bolsonaro, que teve que negar o boato publicamente.
Além disso, a situação serviu de alerta para partidos e campanhas, que passaram a investir mais em equipes de checagem de fatos para evitar que notícias falsas comprometam suas estratégias.
Por fim, a controvérsia reforçou a importância de plataformas de verificação independente, que passaram a ganhar maior relevância nas redes sociais, ajudando a filtrar informações antes que se tornem virais.
Lições aprendidas e perspectivas futuras
O caso evidencia a necessidade de um jornalismo mais rigoroso, especialmente em períodos eleitorais, quando a velocidade da informação pode superar a verificação dos fatos. A Globo, como principal veículo de comunicação do país, tem a responsabilidade de liderar esse movimento de responsabilidade editorial.
Para o público, a experiência serve como um convite à leitura crítica e à checagem de fontes antes de compartilhar notícias sensíveis. A educação midiática torna‑se, assim, um pilar essencial para a saúde da democracia.
Em síntese, a maior fake news da campanha presidencial mostrou como um erro de cobertura pode gerar um efeito dominó, envolvendo políticos, redes sociais e a confiança do eleitorado. A esperança é que o episódio sirva de marco para práticas jornalísticas mais cuidadosas e para um ambiente digital menos propenso a desinformação.








