A recente pesquisa publicada na Nature Communications revelou que a geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental, pode contribuir para um aumento do nível do mar quase duas vezes maior do que o estimado pelos modelos internacionais. O estudo, concluído em 2024, analisou o comportamento da massa de gelo entre 1996 e 2023, destacando riscos que antes eram subestimados. Cientistas alertam que a perda de apoio de formações submarinas pode acelerar o recuo da geleira em décadas futuras.
Acelerado recuo da geleira Thwaites
Desde meados da década de 1990, a parte ocidental da Thwaites tem recuado cerca de 25 quilômetros, impulsionada pelo escoamento mais rápido do gelo. Esse recuo ocorre principalmente porque correntes oceânicas transportam água relativamente quente até a zona de transição entre gelo e mar. Quando a água quente entra em contato com a base da geleira, ela derrete camadas críticas, reduzindo a estabilidade da estrutura.
Os pesquisadores identificaram que a zona de transição tem entre quatro e seis quilômetros de largura, o que influencia diretamente a taxa de derretimento. Quanto maior a extensão dessa zona, maior a vulnerabilidade do gelo ao aquecimento oceânico. Esse detalhe foi incorporado em um modelo computacional avançado que simula o comportamento da geleira sob diferentes condições.
Novos modelos revelam risco duplo
Ao considerar uma zona de transição de aproximadamente cinco quilômetros, o modelo estimou que a Thwaites poderia elevar o nível do mar em até 3,01 centímetros até 2100. Esse valor representa quase o dobro da média de 1,52 centímetro prevista pelos modelos de referência usados pela comunidade científica.
Em cenários que analisaram a possibilidade de desprendimento da Crista Mouginot – uma elevação submarina que serve de apoio ao gelo – a probabilidade de ruptura chegou a 60% até o final do século. Em alguns casos extremos, a ruptura poderia ocorrer já em 2038, desencadeando um recuo ainda mais rápido em direção à Crista Sul.
É importante notar que o estudo manteve as condições climáticas médias registradas entre 1996 e 2023, sem incluir projeções de aquecimento adicional. Essa abordagem permite isolar o efeito do derretimento basal, mas também subestima potenciais impactos de futuros aumentos de temperatura.
Implicações para o futuro do nível do mar
Se a Thwaites perder o apoio da Crista Mouginot, a dinâmica de fluxo do gelo pode mudar radicalmente, ampliando a contribuição ao aumento global do nível do mar. Um recuo mais rápido pode desencadear processos de retroalimentação, onde o gelo exposto a águas mais quentes derrete ainda mais rapidamente.
Além disso, a perda de massa da Thwaites pode influenciar outras geleiras adjacentes, como a Pine Island, que compartilham sistemas de base semelhantes. O efeito combinado pode elevar ainda mais a ameaça às populações costeiras ao redor do mundo.
Os impactos não são apenas ambientais; eles têm repercussões econômicas, sociais e de infraestrutura. Cidades costeiras precisam reavaliar planos de mitigação, considerando que o aumento do nível do mar pode ser mais rápido e maior do que as projeções atuais sugerem.
Caminhos para melhorar as projeções
Os autores do estudo destacam que o modelo ainda apresenta limitações importantes. A circulação oceânica sob a plataforma de gelo foi simplificada, e processos críticos como o desprendimento de blocos de gelo não foram totalmente incorporados.
Para reduzir as incertezas, os cientistas recomendam a realização de medições diretas de temperatura, salinidade e correntes oceânicas na base da geleira. Esses dados permitirão calibrar os modelos e gerar projeções mais robustas.
Investimentos em tecnologia de observação, como veículos autônomos submarinos e sensores de alta resolução, são essenciais para coletar informações em tempo real. A colaboração internacional pode acelerar a implementação desses recursos.
Abaixo, listamos os principais fatores que precisam ser monitorados para aprimorar as previsões:
- Temperatura da água na zona de transição entre gelo e mar.
- Salinidade e densidade das correntes oceânicas que circulam sob a geleira.
- Estabilidade da Crista Mouginot e de outras elevações submarinas de apoio.
- Taxas de desprendimento de blocos de gelo nas áreas de flutuação.
- Variações sazonais e interanuais nas condições climáticas regionais.
Ao integrar esses parâmetros, os modelos poderão refletir de forma mais precisa o comportamento futuro da Thwaites. Isso é crucial para orientar políticas públicas de adaptação costeira.
Além da coleta de dados, a comunidade científica enfatiza a necessidade de melhorar a comunicação dos resultados para o público e tomadores de decisão. Uma compreensão clara dos riscos pode acelerar a adoção de medidas preventivas.
Em síntese, a nova pesquisa indica que a geleira Thwaites representa um risco maior ao nível do mar do que se acreditava, especialmente se a perda de apoio submarino se confirmar. A urgência de monitoramento intensivo e de refinamento dos modelos é evidente.
Enquanto isso, governos e organizações devem considerar cenários mais conservadores ao planejar infraestruturas costeiras, levando em conta a possibilidade de elevações mais pronunciadas até o final do século. A preparação antecipada pode reduzir custos futuros e salvar vidas.
O debate científico continua, mas a mensagem central permanece: a Thwaites está em uma fase crítica, e a ação imediata pode fazer a diferença entre mitigação eficaz e consequências irreversíveis.








