Na manhã da última sexta-feira (16), o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) realizou a Operação Custódia (In)Fiel, cumprindo três mandados de busca e apreensão na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. A ação visou investigar supostos privilégios concedidos a presos provisórios, entre eles o ex‑vereador Milton Leite, que está detido há quase um mês. As diligências foram coordenadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO).
Operação Custódia (In)Fiel e seus alvos
A operação contou com apoio da Polícia Militar, da Polícia Penal e da Corregedoria da Polícia Civil, além da participação de cães farejadores treinados para detectar substâncias ilícitas dentro do sistema prisional. Os agentes atuaram em três locais: a própria cadeia de Mogi das Cruzes, o 1° Distrito Policial da cidade e uma residência vinculada ao caso.
Nos três endereços foram cumpridos mandados que incluíram busca e apreensão, coleta de documentos e bloqueio de dispositivos eletrônicos. O foco principal era obter provas que confirmassem a prática de visitas não registradas e outras regalias que violariam o Regimento Interno das Unidades Prisionais.
O MP‑SP destacou que a investigação parte de uma denúncia anônima recebida em agosto, que apontava um fluxo constante de visitantes sem vínculo familiar com os detentos. Desde então, a polícia realizou monitoramento discreto, entrevistas com funcionários da cadeia e análise de registros de entrada e saída.
Detalhes da apreensão e suspeitas de favorecimento
Durante a busca na residência de um carcereiro, foram encontradas notas em real e dólares que totalizam aproximadamente R$ 200 mil. A quantia inclui cerca de US$ 45 mil, convertidos ao câmbio oficial, e foi considerada suspeita por indicar pagamento por serviços ilícitos.
Segundo a acusação, o servidor público teria permitido visitas fora do horário permitido, sem registro oficial, ao ex‑vereador Milton Leite e a outros indivíduos ligados à política. Entre as supostas regalias, há relatos de almoços regados a vinho em áreas restritas da unidade prisional.
Além do dinheiro, o celular do carcereiro foi apreendido para análise pericial. A perícia técnica deverá verificar mensagens, ligações e aplicativos que possam comprovar a troca de informações e pagamentos entre o servidor e os beneficiados.
A remuneração do carcereiro, segundo dados oficiais, gira em torno de R$ 9.831,94 mensais, valor que, embora elevado para a categoria, não explicaria a soma encontrada em sua residência sem a presença de um esquema de pagamento externo.
- Corrupção passiva
- Corrupção ativa
- Prevaricação
- Violação de normas do Regimento Interno
Esses possíveis delitos podem ser enquadrados nos artigos que tratam de conduta ilícita de servidores públicos, bem como nas normas penais que punem o favorecimento indevido a presos.
Contexto das investigações anteriores e possíveis desdobramentos
A Operação Custódia (In)Fiel surge como continuação da Operação Vectura Corrupta, lançada no mês anterior e que já havia investigado a suposta ligação entre o ex‑vereador Milton Leite e o Primeiro Comando da Capital (PCC). A Vectura Corrupta foi um desdobramento da força‑tarefa Dercúrio, criada em 2024 para combater o crime organizado no sistema de transporte paulistano.
Naquela ocasião, foram cumpridos dezoito mandados de busca e apreensão e dezesseis prisões, incluindo a detenção de Milton Leite. As investigações apontaram que empresas de transporte público poderiam estar sendo usadas para lavagem de dinheiro e para articular candidaturas políticas favoráveis ao crime organizado.
Embora o político tenha negado qualquer vínculo com o PCC, as autoridades continuam a coletar evidências que possam comprovar a existência de um esquema de favorecimento dentro da cadeia. Caso as provas confirmem a prática, os impactos podem se estender a outras unidades prisionais do estado, gerando um amplo debate sobre a necessidade de revisão dos protocolos de visitação.
O Regimento Interno das Unidades Prisionais de São Paulo, estabelecido em 2010, limita as visitas a parentes até o segundo grau e a cônjuges ou companheiros, com no máximo dois visitantes por dia, em até dois dias por semana, entre 8h e 16h. Qualquer violação desse regulamento pode acarretar sanções disciplinares e criminais ao servidor responsável.
Além das implicações penais, a descoberta de grandes quantias em dólares dentro da residência de um carcereiro levanta questões sobre a origem desses recursos. As autoridades já iniciaram procedimentos para rastrear a origem dos fundos, que podem estar ligados a pagamentos de organizações criminosas ou a esquemas de lavagem de dinheiro.
O caso também pode influenciar a percepção pública sobre a integridade do sistema prisional paulista, que já enfrenta críticas por supostos favorecimentos e por condições de superlotação. A sociedade civil tem exigido maior transparência e auditoria independente das unidades prisionais.
- Ministério Público de São Paulo (MP‑SP)
- Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO)
- Polícia Militar
- Polícia Penal
- Corregedoria da Polícia Civil
Com as investigações em curso, o próximo passo será a análise dos dispositivos apreendidos, a oitiva de testemunhas e a elaboração de um relatório conclusivo que será submetido ao juiz Domício Whately Pacheco e Silva. O magistrado deverá decidir sobre a continuidade das medidas cautelares e, se necessário, autorizar novas prisões preventivas.
Enquanto isso, a defesa de Milton Leite mantém que não há provas concretas que justifiquem sua prisão preventiva e solicita a liberação sob medidas alternativas. O processo segue em segredo de justiça, mas a imprensa tem acompanhado de perto cada novo desenvolvimento.








