A equipe internacional de astrônomos identificou, pela primeira vez, uma estrela com tonalidade verde‑amarelada, localizada a cerca de 280 anos‑luz da Terra, na constelação de Draco, em observações realizadas em 2026. O objeto, classificado como anã branca, apresenta um brilho que foge ao padrão tradicional de cores estelares. Essa descoberta abre novas perspectivas sobre a composição química de remanescentes estelares.
Como uma anã branca pode exibir cores fora do espectro habitual
Em estrelas convencionais, a cor está intimamente ligada à temperatura superficial: as mais frias assumem tons alaranjados, o Sol aparece branco e as estrelas mais quentes exibem azul‑claro. As anãs brancas, porém, são núcleos estelares extremamente compactos, resultantes da evolução de estrelas de massa baixa a média que já esgotaram seu combustível nuclear.
Esses remanescentes mantêm a massa de aproximadamente meio Sol, porém comprimidos no volume da Terra, o que gera densidades extraordinárias. A cor predominante das anãs brancas costuma ser branca, mas variações químicas ao longo do tempo podem alterar a forma como elas absorvem e reemitem luz, produzindo tonalidades raras.
O papel do sódio e dos detritos planetários na coloração verde
O estudo liderado pelo astrofísico Mark Hollands revelou que fragmentos de material planetário – restos rochosos de exoplanetas que antes orbitavam a estrela – colidiram com a superfície da anã branca, enriquecendo suas camadas externas com cálcio, lítio e, principalmente, sódio.
- Cálcio
- Lítio
- Sódio
Em condições normais, o sódio absorve um comprimento de onda estreito na região laranja do espectro, responsável pela cor característica das lâmpadas de sódio de rua. Contudo, na anã branca em questão, a densidade é tão alta que os átomos de sódio são constantemente bombardeados por átomos de hélio, modificando seus níveis de energia.
Essa perturbação faz com que o sódio deixe de absorver apenas o tom laranja e passe a bloquear uma faixa mais ampla, incluindo comprimentos de onda amarelos, laranjas e parte dos vermelhos. O que permanece é um brilho verde‑amarelado, impossível de ser reproduzido em estrelas semelhantes ao Sol.
Implicações da descoberta para a astrofísica
A anã branca verde, designada WD J1330+6435, demonstra como processos de poluição externa podem alterar drasticamente a aparência de objetos estelares. A presença de sódio em quantidades relativamente pequenas já é suficiente para modificar a cor percebida, graças à enorme gravidade que comprime a matéria em escala planetária.
Além disso, o achado reforça a importância de estudar as interações entre estrelas mortas e os restos de sistemas planetários. Cada colisão de detritos pode deixar marcas químicas que, ao serem analisadas, revelam a história evolutiva dos planetas que já orbitavam a estrela original.
Os resultados também sugerem que outras anãs brancas podem possuir cores inesperadas, ainda não detectadas por limitações instrumentais ou por análises que não consideram a percepção humana da cor. Projetos futuros que simulam a visão humana podem descobrir mais casos de anãs brancas com tonalidades incomuns.
Metodologia e avaliação visual das cores estelares
O trabalho fez parte de um projeto que avaliou a cor das anãs brancas como seriam vistas pelos olhos humanos, utilizando filtros espectrais que reproduzem a sensibilidade da retina. Os pesquisadores combinaram espectroscopia de alta resolução com modelos de atmosfera estelar para prever como diferentes elementos absorvem a luz.
Boris Gänsicke, coautor do estudo, explicou que a densidade da anã branca – cerca de 165 mil vezes a massa da Terra concentrada em um volume terrestre – faz com que até traços de sódio bloqueiem uma fração significativa da radiação laranja emitida.
A analogia com a paleta de um pintor foi usada para ilustrar o fenômeno: ao remover uma cor base da mistura, o tom final muda completamente. Da mesma forma, a remoção seletiva de comprimentos de onda laranja pelo sódio gera o tom verde‑amarelado observado.
Os dados foram coletados por telescópios de grande porte, incluindo o Observatório de La Palma e o Telescópio Espacial Hubble, que forneceram imagens de alta resolução e espectros detalhados. A combinação de observações terrestres e espaciais garantiu a precisão necessária para confirmar a coloração incomum.
Perspectivas futuras e curiosidades sobre anãs brancas verdes
Os cientistas planejam expandir a pesquisa para outras regiões da Via Láctea, buscando anãs brancas que tenham passado por processos semelhantes de “contaminação” por detritos planetários. A expectativa é que mais objetos exibam cores inesperadas, ampliando o catálogo de anãs brancas com características espectrais distintas.
Além de seu valor científico, a descoberta tem potencial de inspirar projetos de divulgação que mostrem ao público como o universo pode surpreender com cores que vão além do que estamos acostumados a ver. A imagem artística da anã branca verde já circula em redes sociais, despertando curiosidade e admiração.
Em resumo, a identificação da primeira estrela verde reforça a complexidade dos processos físicos que moldam o cosmos, demonstrando que até mesmo objetos aparentemente “mortos” podem revelar novas facetas quando analisados sob a luz correta.








