Nos últimos meses, consumidores de todo o país têm notado que o café coado preparado em casa apresenta diferenças sutis de sabor e aroma. Essa alteração está ligada a mudanças recentes na formulação dos cafés “tradicional” e “extraforte” comercializados nas prateleiras. As modificações foram implementadas ao longo de 2023 e 2024, principalmente nas fábricas situadas nas regiões sudeste e sul do Brasil.
A origem do blend: arábica e conilon
Historicamente, a indústria cafeeira brasileira utilizou a combinação de dois tipos de grão para criar o chamado blend: o arábica, reconhecido por sua acidez equilibrada e notas frutadas, e o conilon, mais robusto e com maior teor de cafeína. Essa mistura permitia atender diferentes perfis de consumo, garantindo consistência ao produto final.
Até pouco tempo atrás, o arábica predominava nas formulações, representando cerca de 70% a 80% da composição dos cafés vendidos em supermercados e padarias. O conilon, por sua vez, completava o restante, oferecendo corpo e força ao preparo.
Por que o arábica está perdendo espaço
Segundo Eric Emiliano, sócio da consultoria L.E.K., o cenário mudou porque o preço do arábica disparou nos últimos anos. Vários fatores contribuíram para esse aumento, entre eles a escassez de áreas cultiváveis e a maior vulnerabilidade da planta a variações climáticas.
Além do custo, a sensibilidade do arábica a eventos como geadas inesperadas, chuvas fora de época e ondas de calor intensas tem reduzido a produtividade das lavouras. Como resultado, os produtores têm buscado alternativas mais resilientes para garantir a colheita.
O conilon, por ser mais resistente a essas adversidades, tornou-se a escolha lógica para suprir a demanda crescente. Sua adaptabilidade a diferentes altitudes e climas permite que os agricultores mantenham a produção mesmo em condições desfavoráveis.
Impactos climáticos na produção de café
O clima tem desempenhado um papel decisivo na redefinição dos blends. As mudanças climáticas provocam fenômenos como:
- Elevação das temperaturas médias nas regiões produtoras;
- Incidência de geadas tardias que danificam os brotos;
- Chuvas irregulares que comprometem a fase de floração;
- Secas prolongadas que reduzem a disponibilidade de água.
Esses eventos afetam diretamente a qualidade e a quantidade dos grãos de arábica, que requerem condições mais estáveis para desenvolver seus atributos sensoriais. Já o conilon demonstra maior tolerância, mantendo a produtividade mesmo em cenários adversos.
Como consequência, os custos de produção do arábica aumentam, refletindo nos preços finais ao consumidor. Para equilibrar a margem de lucro, as indústrias têm ajustado a proporção de conilon nos blends, mantendo o preço do produto final relativamente estável.
O que os consumidores podem esperar
Para o consumidor, a mudança na composição pode ser percebida como uma leve diferença no corpo do café, na intensidade da cafeína e, em alguns casos, na persistência dos sabores após o gole. Contudo, o sabor geral permanece próximo ao que os brasileiros estão acostumados.
As empresas de café têm investido em comunicação transparente, destacando que a alteração visa garantir a disponibilidade do produto em todo o território nacional, sem comprometer a experiência de degustação.
Além disso, algumas marcas começaram a oferecer linhas premium com 100% de arábica, direcionadas a consumidores que buscam perfis sensoriais mais delicados e dispostos a pagar um preço mais alto.
É importante que o consumidor fique atento às informações no rótulo, onde normalmente constam a porcentagem de cada tipo de grão. Essa prática ajuda a entender a origem do sabor e a fazer escolhas alinhadas ao seu paladar.
Em resumo, a combinação de fatores econômicos e climáticos tem impulsionado a substituição parcial do arábica pelo conilon nos cafés tradicionais e extraforte. Essa estratégia permite que a indústria mantenha a oferta constante, mesmo diante de desafios ambientais.
Se você deseja aprofundar o assunto, vale conferir o vídeo explicativo que acompanha a reportagem completa, disponível no portal da Globo. Nele, especialistas analisam os impactos de longo prazo e apresentam previsões para o futuro do café no Brasil.








