Uma formação rochosa em forma de barco, localizada na província de Erzurum, na Turquia, tem sido apontada como possível vestígio da Arca de Noé. O debate sobre sua origem se intensifica desde a década de 1960, quando expedições começaram a investigar o local. Hoje, pesquisadores da Universidade Cumhuriyet de Sivas analisam novos dados enquanto as redes sociais alimentam teorias alternativas.
Origens da lenda e o primeiro contato
O nome Durupınar surgiu em 1959, quando o capitão do Exército turco İlhan Durupınar analisou fotografias aéreas e percebeu a silhueta semelhante a um navio. Ele associou a descoberta ao Monte Ararat, tradicionalmente identificado como o ponto onde a Arca teria repousado após o dilúvio bíblico.
Motivado pela coincidência geográfica, Durupınar contatou a Fundação de Pesquisa Arqueológica dos Estados Unidos, que organizou uma expedição liderada pelo evangelista George Vandeman e pelo especialista em fotogrametria Arthur Brandenberger. O objetivo era confirmar se a formação era, de fato, um casco petrificado.
A missão foi divulgada na revista LIFE em setembro de 1960. Embora alguns membros da equipe permanecessem céticos, o relatório concluiu que não havia evidência de intervenção humana, classificando a estrutura como natural.
- 1959 – Fotografia aérea revela forma de barco.
- 1960 – Expedição americana documenta o local.
- 1960 – Artigo na LIFE indica origem geológica.
Após o estudo, o interesse científico diminuiu e Durupınar entrou em relativo esquecimento até o final dos anos 1970.
Reavivamento das investigações: de Ron Wyatt ao projeto universitário
Em 1977, o enfermeiro e arqueólogo amador Ron Wyatt, inspirado pelo artigo da LIFE, viajou até o sítio para realizar testes próprios. Wyatt alegou ter encontrado madeira petrificada e marcas que, segundo ele, confirmavam a presença da Arca.
Suas afirmações ganharam atenção de grupos religiosos, especialmente da organização americana Noah’s Ark Scans, que começou a promover Durupınar como “a Arca original” nas redes sociais a partir de 2021.
Em 2023, uma equipe da Universidade Cumhuriyet de Sivas iniciou um novo ciclo de pesquisas, combinando técnicas de espectroscopia, tomografia e análise de minerais. Os pesquisadores relataram que alguns resultados preliminares sugeriam formas que lembram estruturas de embarcações, mas enfatizaram que a investigação ainda está em curso.
Ao mesmo tempo, a imprensa britânica e americana reproduziu manchetes sensacionalistas, afirmando que “escaneamentos confirmam origem humana”. Essas declarações, porém, não foram corroboradas pelos laudos científicos ainda pendentes.
- 2021 – Noah’s Ark Scans lança campanha digital.
- 2023 – Universidade Cumhuriyet inicia estudo multidisciplinar.
- 2024 – Resultados preliminares divulgados, sem conclusão final.
Os pesquisadores ressaltam que a presença de camadas de calcário e sedimentos marinhos indica processos geológicos típicos da região, como a formação de arenitos dobrados por movimentos tectônicos.
Além dos exames de rocha, a equipe está analisando a topografia usando LIDAR para mapear fissuras e padrões de erosão que poderiam explicar a forma alongada.
O debate atual e a influência das redes sociais
Nas plataformas digitais, vídeos curtos e posts com imagens de varreduras 3D circulam como prova irrefutável da origem humana da formação. Muitos usuários compartilham legendas que citam “evidência 100 % não geológica”, contribuindo para a polarização do assunto.
Especialistas em comunicação apontam que a narrativa da Arca oferece um gancho emocional poderoso, facilitando a viralização de conteúdo que mistura ciência e fé. Essa dinâmica costuma gerar conflitos entre comunidades acadêmicas e grupos de crença.
Para contrabalançar a desinformação, a universidade tem publicado notas técnicas em seu site oficial, explicando os métodos científicos empregados e destacando a necessidade de revisão por pares antes de qualquer afirmação definitiva.
Enquanto isso, o turismo na região aumentou em cerca de 15 % nos últimos dois anos, impulsionado por peregrinos e curiosos que buscam “ver a Arca”. O governo local tem aproveitado o fluxo para promover o desenvolvimento econômico, mas também tem enfrentado críticas por potencialmente explorar um mito sem comprovação.
Em síntese, Durupınar permanece como um ponto de encontro entre ciência, religião e cultura popular. A investigação continua, e apenas um consenso baseado em evidências robustas poderá esclarecer se a formação é um relicário bíblico ou um impressionante exemplo de geologia.








