Arqueólogos anunciaram a descoberta do naufrágio mais antigo já identificado, localizado nas águas da ilha de Kekova, em Antalya, Turquia. A expedição, liderada pelo professor Hakan Öniz, datou o achado entre 4.400 e 4.700 anos atrás, situando-o no início da Idade do Bronze. A descoberta foi divulgada em maio de 2024, após meses de escavações subaquáticas e análises de cerâmica.
A descoberta e seu contexto histórico
O achado ocorreu em um sítio submerso próximo à costa sul de Kekova, uma região conhecida por suas ruínas antigas e paisagens submersas. A embarcação, estimada em cerca de dez metros de comprimento, parece ter sido um navio mercante que cruzava o Mediterrâneo carregando mercadorias valiosas. Os pesquisadores acreditam que o navio fazia parte de rotas comerciais que ligavam o Levante, o Egito e a Anatólia.
Antes desta descoberta, o naufrágio mais antigo conhecido datava de aproximadamente 4.200 anos e ficava na ilha grega de Dokos. A nova datação empurra o marco histórico em quase cincocentos anos, oferecendo uma nova janela para o estudo das primeiras interações marítimas no Mediterrâneo Oriental.
O contexto da Idade do Bronze na região inclui o florescimento de civilizações como os hititas, os egípcios do Novo Império e as cidades-estado da Anatólia. Essas sociedades dependiam do mar para transportar ouro, prata, cobre, azeite e vinho, produtos que impulsionavam a economia e a diplomacia.
Detalhes arqueológicos e técnicas de datação
Embora a estrutura de madeira do navio tenha desaparecido devido à decomposição, as ânforas de cerâmica encontradas no local foram fundamentais para a datação. As peças apresentam duas alças, uma saliência central e uma base plana, características típicas de ânforas de carga do início da Idade do Bronze.
Os arqueólogos compararam as ânforas com achados de sítios egípcios e do Oriente Médio, cujas datas variam entre 4.440 e 4.700 anos. A similaridade no estilo de decoração, nas marcas de fabricação e nos tipos de esmalte permitiu confirmar a idade do naufrágio com alta confiabilidade.
Além das ânforas, foram recuperados itens que sugerem a vida a bordo:
- Um frasco com nove marcas diferentes e dois furos no corpo, possivelmente usado para preparar queijos ou manteiga durante longas travessias.
- Fragmentos de cerâmica que indicam o transporte de azeite ou vinho, produtos essenciais para a dieta e o comércio da época.
- Pequenas conchas marinhas que podem ter servido como objetos de troca ou como adorno.
O professor Hakan Öniz declarou à BBC que a combinação de técnicas de decoração e a tipologia das ânforas permitem afirmar, com 100% de certeza, que o naufrágio pertence ao início da Idade do Bronze. Essa afirmação foi corroborada por análises químicas que identificaram vestígios de óleos vegetais nas paredes internas das ânforas.
Implicações para o comércio mediterrâneo antigo
O ministro da Cultura e Turismo da Turquia, Mehmet Nuri Ersoy, destacou nas redes sociais que as ânforas provavelmente transportavam azeite ou vinho, produtos que carregam “vestígios significativos de comércio e troca intercultural no Mediterrâneo Oriental”.
Essa descoberta reforça a ideia de que as rotas marítimas entre o Levante, a Anatólia e o Egito eram intensamente movimentadas já no início da Idade do Bronze. O uso de navios de carga relativamente grandes indica um nível avançado de organização logística e de navegação.
O frasco com marcas múltiplas sugere que os marinheiros produziam alimentos a bordo, como queijos e manteiga, para sustentar longas jornadas. Esse detalhe revela que as expedições marítimas exigiam planejamento alimentar e conhecimentos de conservação de alimentos, aspectos pouco documentados em fontes escritas da época.
Além disso, a presença de conchas e pequenos objetos decorativos aponta para possíveis trocas de bens de baixo valor, mas de grande significado cultural, entre as comunidades costeiras. Esses intercâmbios poderiam ter facilitado a difusão de técnicas artesanais, estilos artísticos e até mesmo de ideias religiosas.
A descoberta também abre novas possibilidades para pesquisas futuras. Os arqueólogos planejam mapear outras áreas submersas ao redor de Kekova, na esperança de localizar mais restos de embarcações e mercadorias. Cada novo achado pode refinar ainda mais o entendimento das redes comerciais do Mediterrâneo Antigo.
Em resumo, o naufrágio de Kekova não é apenas o mais antigo já encontrado, mas também um testemunho vívido da complexidade das primeiras rotas marítimas, da tecnologia naval primitiva e da interconexão cultural que já existia há mais de quatro milênios.








