Em 15 de setembro de 2024, a empresa americana Colossal Biosciences anunciou um novo marco na ciência de desextinção: o uso de inteligência artificial para mapear as alterações genéticas que definem o crânio do dodô, ave extinta há séculos nas Ilhas Maurício. A iniciativa busca, ainda que ainda em fase experimental, devolver a espécie ao seu habitat original, reforçando o debate sobre responsabilidade humana e tecnologia.
A descoberta da IA GenoMorph
O modelo de IA desenvolvido pela Colossal, denominado GenoMorph, funciona como um mapa do tesouro genético. Ele analisa milhões de variações entre o DNA de espécies vivas e o fragmentado genoma do dodô, isolando as mutações que moldaram seu crânio robusto e seu bico curvo.
Segundo o CEO Ben Lamm, a ferramenta consegue filtrar “centenas de milhares” de mudanças genéticas, identificando aquelas que são realmente exclusivas do dodô. Esse processo, antes impossível devido à escassez de amostras, agora está quase concluído, com 95% do genoma reconstruído.
A aplicação da IA reduz drasticamente o tempo de pesquisa, permitindo que equipes de biólogos e engenheiros genéticos trabalhem em paralelo. O resultado é um roteiro detalhado para editar o genoma de um parente próximo – o pombo-de‑nicobar – e transformar suas características em uma cópia funcional da ave extinta.
Desafios genéticos e a reconstrução do genoma
Um dos maiores obstáculos era a falta de múltiplas amostras do DNA do dodô. Apenas um genoma completo foi sequenciado, dificultando a distinção entre traços únicos e variações comuns. O GenoMorph resolve esse impasse ao comparar o DNA do dodô com o de mais de 70 espécies vivas, aprendendo os padrões que controlam o desenvolvimento de crânios e bicos.
Além da identificação das mutações, a equipe precisa inserir essas alterações em embriões de pombo‑de‑nicobar. O processo envolve técnicas avançadas de edição CRISPR‑Cas9, que permitem cortar e substituir segmentos de DNA com precisão quase microscópica.
Outro ponto crítico é garantir que as mudanças não comprometam a viabilidade dos embriões. Cada inserção genética é testada em cultura celular antes de avançar para a fase de incubação, minimizando riscos de falhas ou anomalias.
O caminho para a reintrodução nas Ilhas Maurício
A Colossal mantém uma colônia de 36 pombos‑de‑nicobar no Texas, onde os primeiros experimentos de edição genética são realizados. Paralelamente, cientistas mauricianos e organizações de conservação trabalham na restauração dos habitats das ilhas, removendo predadores invasores como ratos e gatos.
Para que os dodôs possam sobreviver após a reintrodução, será necessário reconstruir áreas de vegetação nativa que forneçam alimento e abrigo. O plano inclui a plantação de árvores frutíferas e a criação de zonas de exclusão de predadores, utilizando cercas eletrificadas e monitoramento por drones.
Embora a data de liberação ainda não tenha sido anunciada, a empresa assegura que a fase de análise genética está em sua etapa final. Quando os primeiros indivíduos forem criados, eles passarão por um programa de aclimatação antes de serem soltos nas ilhas.
Outros projetos de desextinção da Colossal
A tentativa de reviver o dodô integra um portfólio ambicioso da Colossal, que já anunciou esforços semelhantes para outras espécies extintas. Entre os projetos em andamento, destacam‑se:
- Lobo‑terrível (Aenocyon dirus) – nascido em 2025, gerou controvérsia e debate científico.
- Mamute‑lanoso (Mammuthus primigenius) – foco em adaptação ao clima frio e integração em reservas árticas.
- Lobo‑da‑Tasmânia (Thylacinus cynocephalus) – busca restaurar predadores nativos na Austrália.
- Antílope‑azul (Hippotragus leucophaeus) – projeto de reintrodução em savanas africanas protegidas.
- Moas (Dinornithiformes) – aves não voadoras da Nova Zelândia, com desafios de reprodução em cativeiro.
Esses esforços ilustram uma tendência crescente de usar biotecnologia avançada para reparar danos ecológicos causados pela ação humana. Cada projeto enfrenta críticas éticas, mas também desperta esperança de que a ciência possa oferecer soluções concretas para a perda de biodiversidade.
O caso do dodô, porém, possui um simbolismo particular. A ave tornou‑se um ícone mundial da extinção provocada pela colonização, representando a fragilidade dos ecossistemas insulares. Reviver o dodô pode servir tanto como um ato de reparação histórica quanto como um teste de viabilidade para futuras iniciativas de desextinção.
Em resumo, a Colossal Biosciences combina inteligência artificial, edição genética e conservação prática para transformar um sonho de ficção científica em um projeto científico real. O sucesso ou fracasso desse empreendimento terá repercussões profundas nas políticas de conservação, no financiamento de biotecnologia e na percepção pública sobre o papel da humanidade na preservação da vida na Terra.








