Na manhã desta quinta‑feira, 15 de outubro, a Polícia Federal efetuou a prisão de Márcio Canella, ex‑prefeito de Belford Roxo e recém‑eleito deputado estadual pelo Rio de Janeiro. A detenção ocorreu na residência do político, situada na Barra da Tijuca, como parte da oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma suposta rede de lavagem de dinheiro envolvendo postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio.
Operação Unha e Carne e o alvo principal
A Operação Unha e Carne foi lançada em 2022 com o objetivo de desarticular uma organização criminosa armada que utilizava estabelecimentos de combustíveis como fachada para movimentar recursos ilícitos. Desde então, a investigação evoluiu em oito fases, cada uma ampliando o alcance geográfico e o número de investigados. A fase atual concentra-se na identificação de responsáveis políticos e policiais que, segundo a PF, teriam facilitado a prática de crimes financeiros.
O Ministério da Justiça, por meio da Polícia Federal, descreve a operação como parte da Força‑Tarefa Missão Redentor II, iniciativa que visa combater cartéis de lavagem de dinheiro, corrupção e desvios de conduta no estado do Rio de Janeiro. O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) indica que o esquema movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, o que demonstra a dimensão e a complexidade da rede investigada.
Detalhes da prisão de Márcio Canella
Os agentes da PF cumpriram seis mandados de prisão preventiva em diferentes municípios, entre eles Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. No caso de Canella, a prisão ocorreu em sua casa na Barra da Tijuca, onde foram encontradas evidências que reforçam as suspeitas de envolvimento em crimes de lavagem e organização criminosa.
Durante a busca, os policiais localizaram um fuzil calibre .556 no interior do veículo do deputado, o que levou à acusação adicional de porte ilegal de arma de uso restrito. Canella já havia sido detido em julho, na sexta fase da mesma operação, por porte de arma. Na ocasião, ele respondeu ao processo em liberdade, mediante medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes.
Ele foi eleito o segundo deputado estadual mais votado do Rio nas eleições de 2022, acumulando 197.178 votos, o que torna o caso ainda mais sensível do ponto de vista político e midiático.
Outros investigados e a rede de postos
Além de Márcio Canella, a operação prendeu ou citou como investigados diversos agentes públicos e membros da força policial. Entre eles, o delegado Marcus Amim, ex‑secretário estadual de Polícia Civil, o inspetor Pablo Russo e os policiais Christiano Gaspar Fernandes, Giovanni Gaspar Fernandes e José Carlos Alves de Souza Júnior. Todos eles são apontados como facilitadores ou executores de atividades ilícitas dentro da rede de postos de combustíveis.
- Rio de Janeiro
- Niterói
- Angra dos Reis
- Petrópolis
- Armação dos Búzios
- Nova Iguaçu
- São Gonçalo
De acordo com a PF, 96 dos 112 estabelecimentos bloqueados são postos de combustíveis que serviam como fachada para a camuflagem de recursos de origem criminosa. Esses postos permitiam a inserção de dinheiro sujo no sistema financeiro formal, por meio da venda de combustíveis a preços manipulados e da emissão de notas fiscais falsas.
Os investigados também responderão por crimes de corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, segundo o Ministério Público. A amplitude das acusações evidencia a complexidade da rede, que envolvia tanto agentes políticos quanto membros da polícia civil.
Consequências legais e políticas
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a prisão preventiva de todos os alvos e determinou o sequestro de bens e valores vinculados ao esquema. Foram bloqueados ativos financeiros e suspensas as atividades econômicas de 112 empresas, como medida para impedir a continuidade dos fluxos ilícitos.
O impacto da operação nas esferas política e econômica é significativo. A prisão de um deputado estadual recém‑eleito gera dúvidas sobre a integridade de candidaturas e a necessidade de maior rigor na avaliação de antecedentes de candidatos. Além disso, a interrupção de centenas de postos de combustíveis pode gerar efeitos colaterais no abastecimento e nos preços regionais, embora as autoridades assegurem que o abastecimento continuará garantido por outras redes.
Analistas de direito e de segurança pública apontam que a Operação Unha e Carne pode servir de precedente para futuras investigações que busquem desmantelar esquemas de lavagem de dinheiro em setores estratégicos, como o de energia. A cooperação entre a PF, o COAF e o Ministério da Justiça será essencial para manter a pressão sobre organizações que utilizam negócios legítimos como fachada.
Do ponto de vista político, a prisão de Canella pode alterar o equilíbrio de poder dentro da bancada da União Brasil no estado, obrigando o partido a reavaliar sua estratégia legislativa e sua imagem perante o eleitorado. A oposição, por sua vez, tem aproveitado o caso para cobrar maior transparência e combate à corrupção nas esferas estaduais e municipais.
Em síntese, a Operação Unha e Carne demonstra que a investigação de crimes financeiros exige um esforço conjunto entre órgãos de inteligência, justiça e segurança pública. O desmantelamento de redes que utilizam postos de combustíveis como canal de lavagem de dinheiro representa um marco importante no combate à criminalidade organizada no Rio de Janeiro.








