Na manhã da última quarta‑feira, 14 de julho, o Senado Federal aprovou em dois turnos a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que encerra a escala 6×1, reduzindo a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais e garantindo dois dias de descanso remunerado. A votação contou com o apoio de 75 dos 81 senadores, enquanto apenas um voto foi contrário.
Contexto da aprovação da PEC
O projeto surgiu como parte das negociações do governo Lula para ampliar direitos trabalhistas antes das eleições de 2026. A proposta foi apresentada como forma de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e de alinhar a legislação brasileira às práticas adotadas em países da União Europeia.
Para que uma emenda constitucional seja aprovada no Senado, é necessário obter, no mínimo, 49 votos favoráveis – o equivalente a três quintos dos membros da Casa. Com 75 votos a favor, a PEC ultrapassou amplamente esse patamar, sinalizando amplo consenso entre os parlamentares, inclusive entre membros da oposição.
A mudança representa a primeira redução da jornada de trabalho desde a Constituição de 1988, que estabeleceu o teto de 44 horas semanais. O texto agora segue para promulgação, o que significa que a nova regra poderá entrar em vigor ainda este ano, dependendo da sanção presidencial.
O voto isolado de Hamilton Mourão
O único senador que se opôs à medida foi Hamilton Mourão, vice‑presidente do governo de Jair Bolsonaro e membro do partido Republicanos (RS). Seu voto foi registrado no primeiro turno da votação, quando ainda havia espaço para possíveis mudanças de posicionamento.
Mourão justificou a decisão apontando que a redução da jornada poderia gerar efeitos colaterais negativos, como aumento da informalidade e necessidade de novas contratações por parte das empresas, sobretudo as de menor porte.
Além disso, o senador ressaltou que a proposta foi apresentada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva como estratégia eleitoral, chamando a iniciativa de “oportunista”. Essa crítica ecoa a retórica de setores conservadores que veem a medida como um instrumento de captura de votos.
Mesmo assim, Mourão destacou que sua posição não se baseia em oposição ao direito ao descanso, mas sim em preocupações técnicas e econômicas que, segundo ele, ainda não foram plenamente avaliadas.
Reações de outros atores políticos
O apoio à PEC veio também de Flávio Bolsonaro, senador e candidato à presidência, que declarou que votaria a favor da medida apesar das críticas recorrentes ao governo Lula. Em entrevista, Flávio descreveu a proposta como “oportunista”, mas afirmou que a votação seria estratégica para garantir apoio popular.
O senador chegou a visitar o pai, o ex‑presidente Jair Bolsonaro, antes da votação, recebendo apoio familiar que ele interpretou como sinal de que a medida poderia ser benéfica para a classe trabalhadora, ainda que com ressalvas.
Outros líderes da oposição, como o presidente da bancada do PT, elogiaram a aprovação, destacando que a redução da jornada representa um avanço histórico para os direitos trabalhistas no Brasil.
- Benefícios apontados: maior qualidade de vida, redução de estresse e aumento da produtividade.
- Desafios citados: necessidade de adaptação das empresas, risco de aumento da informalidade e custos adicionais com contratações.
Os sindicatos também se manifestaram, com o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) celebrando a aprovação como “uma vitória para os trabalhadores brasileiros”.
Impactos esperados e desafios de implementação
Especialistas em direito trabalhista apontam que a mudança exigirá ajustes nos contratos de trabalho, nos sistemas de ponto e nas políticas de remuneração das empresas. A transição para a jornada de 40 horas pode demandar um período de adaptação de até dois anos.
Alguns economistas alertam que a redução da carga horária pode gerar aumento de custos operacionais, sobretudo para micro e pequenas empresas que já enfrentam margens apertadas. Em contrapartida, outros argumentam que a maior satisfação dos funcionários pode resultar em menor rotatividade e, consequentemente, em economia de recursos com recrutamento.
Para mitigar possíveis efeitos negativos, o governo Lula anunciou a criação de um programa de apoio financeiro a empresas que adotarem a nova jornada, com linhas de crédito especiais e incentivos fiscais.
Além disso, o Ministério da Economia está preparando diretrizes para que a transição seja feita de forma gradual, permitindo que setores estratégicos, como o de saúde e educação, ajustem suas rotinas sem prejuízos ao serviço público.
O debate sobre a informalidade também foi intenso. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) recomenda que políticas de redução de jornada sejam acompanhadas de medidas de formalização, como a simplificação de processos de registro de empresas e a ampliação de programas de capacitação.
Em síntese, a aprovação da PEC marca um ponto de inflexão nas relações de trabalho no Brasil, mas sua efetividade dependerá da capacidade do Estado e do setor privado de implementar as mudanças de forma coordenada.








