O filme “Street Fighter” estreou nesta quinta‑feira (15) nos cinemas brasileiros, trazendo à tela a famosa franquia de jogos de luta. A produção promete ação, humor e a presença de personagens icônicos, mas entrega uma experiência marcada por falta de foco e excesso de lutadores.
Personagens e elenco: talento desperdiçado
O elenco conta com nomes de peso, como Andrew Koji (Ryu), Noah Centineo (Ken) e Callina Liang (Chun‑Li), além de participações de celebridades como Curtis “50 Cent” Jackson e o cantor country Orville Peck. Cada ator demonstra domínio físico e carisma, mas o tempo de tela é fragmentado por intervenções de personagens secundários.
Quando a narrativa tenta dar espaço a cada figura, a história perde ritmo. O boxeador inspirado em Mike Tyson, interpretado por 50 Cent, aparece em uma sequência curta que poderia ter sido ampliada para explorar sua motivação. Da mesma forma, o capanga mascarado Vega, encarnado por Orville Peck, tem apenas um momento de destaque antes de desaparecer.
O resultado é um elenco que brilha em momentos isolados, mas nunca tem a oportunidade de se desenvolver. O espectador sente que poderia ter assistido a um filme de artes marciais focado em três protagonistas, mas se vê sobrecarregado por aparições que não acrescentam nada à trama.
Roteiro e narrativa: o que falta ao filme
Co‑escrito pelo diretor Kitao Sakurai, o roteiro tenta entrelaçar três linhas principais: a rivalidade entre Ryu e Ken, a vingança de uma agente da Interpol e a ameaça de um demônio misterioso. Essa estrutura, porém, nunca atinge um ponto de convergência claro.
Ao invés de aprofundar a relação entre os dois lutadores de artes marciais, o filme interrompe a história para inserir uma agente da Interpol em busca de justiça, um brutamontes russo, um lutador de sumô e até um monstro verde muito querido dos brasileiros. Cada inserção parece feita apenas para agradar fãs, sem oferecer motivação narrativa.
A falta de foco torna‑se ainda mais evidente quando o filme tenta explicar o torneio criado por um ditador que deseja roubar poderes. Essa premissa poderia gerar tensão, mas é tratada de forma superficial, como se fosse apenas um pretexto para mais lutas.
- Ryu e Ken – rivalidade e amizade interrompidas
- Agente da Interpol – vingança sem conexão direta
- Brutamontes russo – força bruta sem propósito
- Lutador de sumô – alívio cômico deslocado
- Monstro verde – nostalgia sem relevância
Com tantos personagens, a narrativa perde a capacidade de criar empatia. O espectador não tem tempo para se importar com nenhum deles, e a história se transforma em uma sequência de lutas desconexas.
Coreografias e efeitos: acertos e tropeços
Apesar das falhas de roteiro, as coreografias de luta apresentam momentos de brilho. As sequências que utilizam os golpes especiais clássicos – como o Hadouken e o Shoryuken – são bem executadas e remetem ao visual dos jogos.
A animação usada para retratar o passado dos personagens também merece destaque. Ela confere um estilo visual que homenageia as fases icônicas da franquia, permitindo que o público reconheça ambientes familiares.
Entretanto, a abundância de lutadores impede que cada combate receba a atenção necessária. Algumas cenas são cortadas abruptamente, deixando a sensação de que lutas promissoras foram sacrificadas em nome da quantidade.
Os efeitos especiais, como bolas de fogo e corpos que se esticam, funcionam de forma intermitente. Quando bem dosados, criam momentos de empolgação; quando exagerados, dão a impressão de que o filme tenta compensar a falta de história com espetáculo visual.
Conclusão: lições para futuras adaptações
“Street Fighter” demonstra que fidelidade ao material original não é suficiente para garantir sucesso. A galhofa e o respeito às características dos personagens são pontos positivos, mas precisam ser acompanhados de uma narrativa coesa.
Para adaptações de jogos de luta, o foco deve recair sobre poucos personagens bem desenvolvidos, permitindo que o público se identifique com suas motivações. Um roteiro enxuto, aliado a coreografias bem planejadas, pode transformar uma franquia de videogame em um filme memorável.
Em última análise, o filme deixa um alerta: mais personagens não significam melhor experiência. O equilíbrio entre homenagem, história e ação é o que realmente salva uma adaptação. Espera‑se que os produtores aprendam com esses erros e entreguem, no futuro, obras que honrem tanto os fãs quanto a arte cinematográfica.








