A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou, nesta terça‑feira, 13 de outubro, uma operação de grande porte contra policiais militares suspeitos de colaborar com o Comando Vermelho (CV). A ação contou com o apoio do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (GAECO/MPRJ) e da Corregedoria da Polícia Militar, resultando na prisão de três pessoas até o momento da publicação.
Início da Operação e Prisões
A investigação teve como ponto de partida a captura, em outubro de 2023, do militar Yuri Luiz Desiderati Ribeiro e de Marcos Leandro de Oliveira Serra, conhecido como Kiko, enquanto transportavam mais de 100 quilos de cocaína pela Avenida Brasil. Ambos foram detidos após uma abordagem que revelou a existência de um esquema logístico sofisticado, envolvendo armazenamento e distribuição de entorpecentes em áreas controladas pelo CV.
Com a morte de Ribeiro em julho deste ano, no bairro do Pechincha, em Jacarepaguá, a polícia intensificou as diligências para mapear a rede de apoio que o militar mantinha dentro da corporação. As investigações apontaram que o caso não era isolado, mas parte de uma estrutura mais ampla que utilizava a condição de agente de segurança pública para facilitar a entrada de drogas e armas nas favelas do Rio.
Estrutura do Esquema Criminoso
Os investigadores identificaram que Kiko desempenhava um papel central na logística, coordenando o contato direto com lideranças do CV para viabilizar o transporte e o armazenamento dos entorpecentes. Ele utilizava pontos estratégicos, como galpões abandonados e casas de apoio, para ocultar a carga antes da distribuição nas comunidades.
Além de Kiko, outro elo importante era Manoel Cinquine Pereira, conhecido como “o Paulista”. Ele atuava como intermediário entre diferentes membros da quadrilha, facilitando a comunicação e o repasse de informações sobre rotas de fuga, horários de patrulha policial e pontos de entrega. Essa rede de apoio permitia que grandes quantidades de droga circulassem com relativa impunidade.
Papel dos Policiais Militares
Os policiais militares envolvidos no esquema utilizavam sua autoridade para obter informações privilegiadas sobre operações policiais, rotas de patrulha e investigações em curso. Essa inteligência era repassada a Kiko e aos demais membros da quadrilha, permitindo que as ações do CV fossem ajustadas em tempo real para evitar apreensões.
Entre os PMs citados, destaca‑se o agente Eric da Silva Lobato, que teria fornecido dados estratégicos sobre intervenções da polícia nas áreas de influência do CV. O relatório da PCERJ indica ainda que esses militares negociavam clandestinamente armamentos e munições, abastecendo o braço armado da facção e garantindo que os criminosos mantivessem superioridade de fogo nas disputas territoriais.
O esquema também contou com a participação de Luciano Santos de Oliveira, o “Hot Wheels”, apontado como chefe do tráfico de drogas em comunidades de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Segundo a Polícia Civil, Hot Wheels mantinha contato direto com o policial Yuri Ribeiro, que usava sua condição funcional para favorecer as atividades do CV, inclusive facilitando a entrada de armas de alto calibre nas áreas controladas.
Impactos e Repercussões
Outros três denunciados – Paulo Victor Soares de Melo, Leonardo Aguiar da Silva e Kauan Soares Omero – foram identificados como integrantes do braço armado do Comando Vermelho. Eles exerciam funções de segurança para lideranças do tráfico, patrulhando territórios e empregando armas de fogo para garantir a manutenção do domínio criminal nas áreas de atuação da facção.
A operação gerou grande repercussão na mídia local e nacional, despertando debates sobre a necessidade de reformas estruturais nas corporações de segurança pública. Especialistas apontam que a infiltração de policiais em organizações criminosas compromete a confiança da população nas instituições e dificulta o combate efetivo ao tráfico.
Como medida corretiva, a Corregedoria da Polícia Militar anunciou a abertura de processos disciplinares contra os militares identificados, além de intensificar programas de integridade e monitoramento interno. O Ministério Público do Rio, por sua vez, reforçou o apoio ao GAECO, prometendo ampliar a cooperação entre órgãos de segurança para desarticular redes semelhantes em outras regiões do estado.
Até o momento, a operação resultou na prisão de três indivíduos e na apreensão de quantidades significativas de cocaína, armas de fogo e munições. As investigações continuam em curso, com a expectativa de que novos nomes sejam identificados nos próximos dias, ampliando o alcance da ação policial contra a quadrilha que, segundo autoridades, representa uma ameaça grave à ordem pública no Rio de Janeiro.








