Um estudo recente da Embrapa revelou que o uso intensivo de nitrogênio e fósforo está provocando poluição nas principais bacias hidrográficas do Brasil. A pesquisa, concluída em 2024, analisou dados de 2020 a 2023 e focou no cinturão do agronegócio, que abrange Centro-Oeste, Matopiba, partes de São Paulo e Paraná.
Impacto dos fertilizantes nos recursos hídricos
Os cientistas combinaram informações sobre a aplicação de fertilizantes por cultura, o tamanho dos rebanhos e a extensão das áreas de cana‑de‑açúcar. Esse cruzamento de dados permitiu mapear como os nutrientes chegam às microbacias e alteram a qualidade da água. O nitrogênio, quando em excesso, favorece o crescimento de algas que consomem oxigênio e geram zonas mortas nos rios.
O fósforo, por sua vez, tem menor mobilidade, mas se acumula no fundo dos reservatórios, tornando‑se fonte permanente de eutrofização. Quando chove, a água arrasta esses nutrientes do solo para os cursos d’água, intensificando o processo de poluição difusa. Essa dinâmica afeta não só a fauna aquática, mas também a potabilidade da água para as cidades próximas.
Além dos impactos ecológicos, a contaminação tem repercussões econômicas. Indústrias que dependem de água limpa, como a de bebidas e de papel, enfrentam custos maiores para tratamento. Agricultores que dependem de irrigação também podem sofrer perdas de produtividade devido à degradação da qualidade da água.
Regiões mais vulneráveis e prioridades de monitoramento
O mapa gerado pelos pesquisadores destaca três áreas críticas: o Centro‑Oeste (Mato Grosso, Mato Grande do Sul, Goiás), o chamado Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e trechos específicos de São Paulo e Paraná. Nessas regiões, a combinação de alta fertilização, grande extensão de lavouras e presença de grandes rebanhos cria um cenário propício à poluição.
No Centro‑Oeste, a produção de soja e milho utiliza doses elevadas de fertilizantes nitrogenados. A presença de grandes áreas de pastagens intensifica o escoamento superficial, transportando resíduos animais para os rios. Já no Matopiba, a expansão recente da agricultura de grãos tem sido acompanhada por pouca infraestrutura de manejo de resíduos.
Em São Paulo e Paraná, a produção de cana‑de‑açúcar e a pecuária de corte coexistem em paisagens fragmentadas. A falta de corredores vegetais entre os campos e os corpos d’água favorece a entrada direta de nutrientes.
Com base nesses achados, a Embrapa propôs um plano de monitoramento que prioriza microbacias com maior índice de risco. O objetivo é instalar estações de medição de nitrogênio e fósforo, além de sensores de oxigênio dissolvido, para gerar alertas em tempo real.
Estrategias para reduzir a poluição difusa
Os autores do estudo apontam que a solução passa por ações integradas entre produtores, órgãos ambientais e pesquisadores. A primeira linha de defesa é a conservação do solo, que reduz o escoamento e aumenta a retenção de água.
Técnicas como plantio direto, terraceamento e uso de coberturas vegetais são recomendadas para minimizar a perda de nutrientes. Quando o solo está bem protegido, menos fertilizante é arrastado pelas chuvas.
O uso eficiente de fertilizantes também é fundamental. Aplicações de taxa correta, realizadas em períodos de menor risco de chuva, evitam o excesso de nitrogênio no solo. Ferramentas de agricultura de precisão, como sensores de umidade e drones, ajudam a calibrar a dose necessária.
Preservar a vegetação nativa nas zonas de transição entre a terra e os corpos d’água cria filtros naturais. Essas faixas ripárias absorvem parte dos nutrientes antes que alcancem os rios.
- Adotar o plantio direto e a rotação de culturas para melhorar a estrutura do solo.
- Utilizar fertilizantes de liberação controlada e aplicar em dias sem previsão de chuva.
- Instalar faixas de vegetação nativa ao longo de rios e córregos.
- Implementar sistemas de monitoramento remoto com sensores de qualidade da água.
- Capacitar agricultores em boas práticas de manejo e manejo integrado de pragas.
Além das medidas técnicas, a Embrapa destaca a importância de políticas públicas que incentivem a adoção dessas práticas. Subsidios para equipamentos de precisão, linhas de crédito verdes e programas de certificação ambiental podem acelerar a transição.
O estudo também sugere que os dados coletados nas microbacias sirvam de base para a formulação de normas mais rígidas de controle de fertilizantes. A integração entre bases de dados agrícolas e hidrológicas permite identificar rapidamente áreas de risco emergente.
Em termos de educação, campanhas de conscientização dirigidas a agricultores e comunidades rurais são essenciais. Quando os produtores entendem o vínculo entre a saúde do solo e a qualidade da água, aumentam a disposição para mudar práticas.
Por fim, a pesquisa reforça que a segurança hídrica do Brasil depende de um esforço conjunto. A proteção dos recursos hídricos não pode ser vista como responsabilidade exclusiva de um setor, mas como um objetivo comum que envolve agricultura, indústria, governo e sociedade civil.








