Na segunda‑feira, 12 de outubro, o primeiro‑ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ordenou que sejam identificados e investigados os militares que aparecem no documentário NAZI. A decisão foi tomada em Jerusalém e dirigida à procuradora‑geral, ao chefe do Estado‑Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF) e ao diretor da Shin Bet.
Investigação ordenada por Netanyahu
Netanyahu enviou uma carta oficial às autoridades competentes pedindo a revelação das 24 fontes anônimas que participaram do filme. Ele solicitou ainda que seja aberta uma investigação criminal por possíveis violações de segurança, difamação e danos aos interesses diplomáticos de Israel.
Os principais pontos da ordem incluem:
- Identificação das identidades das fontes citadas no documentário;
- Apuração de possíveis crimes de traição ou vazamento de informações confidenciais;
- Possível responsabilização disciplinar ou judicial dos militares envolvidos.
O advogado‑geral militar, Itai Ofir, ressaltou que qualquer acusação criminal dependerá da existência de provas concretas de violação de segurança ou divulgação de material classificado.
O conteúdo e as acusações do documentário NAZI
Produzido pelo The Guardian e dirigido pelos jornalistas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, NAZI reúne depoimentos de militares e membros da inteligência que descrevem o uso de algoritmos de inteligência artificial para selecionar alvos em Gaza. O filme alega que esses sistemas permitiram um número elevado de mortes civis por ataque.
O título faz referência a um termo interno da inteligência israelense usado como eufemismo para estimar o número de civis que poderiam morrer em cada bombardeio. Segundo os realizadores, o algoritmo calculava “níveis de aceitabilidade” de danos colaterais antes de autorizar o ataque.
Abraham e Szor já haviam conquistado o Oscar em 2025 com Sem Chão, que documentou violência de colonos contra palestinos na Cisjordânia. Agora, eles enfrentam acusações de traição e ameaças de revogação de cidadania por parte do governo israelense.
Reações internacionais e de organizações de imprensa
A Federação Europeia de Jornalistas condenou as ameaças de Netanyahu, classificando a tentativa de identificar fontes como intimidação contra profissionais da mídia. O Guardian defendeu a integridade da apuração, afirmando que o documentário cruzou entrevistas, documentos confidenciais e dados de campo.
Vários observadores internacionais alertaram que a medida pode criar um precedente perigoso para a liberdade de imprensa, especialmente em contextos de conflito armado. Organizações de direitos humanos pediram que Israel respeite o sigilo das fontes jornalísticas.
Contexto da guerra em Gaza e impactos civis
Desde o início da ofensiva israelense em outubro de 2023, o Ministério da Saúde de Gaza, sob controle do Hamas, registra mais de 74 mil mortos e cerca de 175 mil feridos entre a população palestina. Esses números são corroborados por agências da ONU.
O conflito teve origem após o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou mais de 1.200 civis israelenses e raptou 251 pessoas, levando-as para Gaza. Israel respondeu com uma campanha aérea e terrestre que, segundo relatos de organizações humanitárias, tem causado elevado número de vítimas civis.
O documentário NAZI estreou no Festival de Veneza, onde recebeu o Prêmio Especial do Júri. A produção se baseou em mais de 100 entrevistas com militares, comandantes e especialistas em tecnologia de guerra, oferecendo uma visão detalhada dos processos de decisão de ataque.
Enquanto o governo israelense busca responsabilizar os entrevistados, defensores dos direitos humanos enfatizam a necessidade de transparência sobre o uso de IA em operações militares, argumentando que a falta de controle pode aumentar o risco de crimes de guerra.








