Em fevereiro de 2025, a polícia sul‑coreana prendeu o diretor de uma residência assistida para pessoas com deficiência intelectual após denúncias de abuso sexual. O caso, ocorrido na cidade de Incheon, a oeste de Seul, mobilizou a opinião pública e trouxe à tona falhas no sistema de proteção do Estado.
Contexto da residência assistida
Saekdongwon foi inaugurada em 2016 como uma unidade totalmente subsidiada pelo governo sul‑coreano, destinada a acolher cerca de 33 moradores com necessidades especiais. A política de apoio buscava garantir moradia, cuidados médicos e acompanhamento pedagógico para indivíduos que, como Seo Mi‑hyeon, possuem deficiência intelectual.
Seo, que tem cerca de 40 anos, chegou ao local em 2016 e passou a viver em um ambiente onde a comunicação era limitada a gestos e frases curtas. Apesar das promessas de assistência, a estrutura carecia de supervisão adulta suficiente para proteger os residentes de situações de vulnerabilidade.
Segundo relatos da advogada Ko Eun‑young, a falta de pessoal capacitado dificultava que os moradores relatassem incidentes. A instituição, embora financiada pelo Estado, não possuía protocolos claros para lidar com denúncias de abuso ou violência.
Denúncia e investigação
O primeiro passo para a revelação dos crimes aconteceu quando Seo sofreu um ferimento na cabeça ao tentar impedir um ataque do diretor, identificado apenas como Kim. O agressor teria jogado um copo contra a cabeça da vítima, causando laceração que exigiu sutura.
Após o incidente, a instituição levou Seo ao hospital, mas só informou a mãe sobre a gravidade da lesão depois da aplicação dos pontos. A mãe, ao solicitar as imagens das câmeras de segurança para entender o que havia acontecido, recebeu a negativa da administração, que alegou falta de autorização para liberar o material.
Sentindo-se desamparada, a mãe retirou a filha da residência e, ao saber que Seo não precisaria retornar ao local, a jovem decidiu contar tudo à polícia. A confissão incluiu detalhes sobre visitas noturnas do diretor, que ocorria nas primeiras horas da manhã, e a ausência de qualquer adulto a quem pudesse recorrer.
A investigação policial ampliou o escopo para outras moradoras. Entre as vítimas identificadas estavam Lee Mi‑na, que relatou ter sido estuprada enquanto estava no vaso sanitário, e uma terceira moradora cuja acusação de estupro foi posteriormente reduzida por falta de evidências de coação.
- Coleta de depoimentos de três vítimas;
- Análise de registros de câmeras de segurança;
- Exame médico das lesões físicas;
- Ouvir testemunhas da comunidade local.
Em outubro de 2025, o tribunal de Seul considerou confiáveis os depoimentos das três mulheres e pronunciou a sentença contra Kim.
Sentença e reações
Kim foi condenado a 15 anos de prisão pelos crimes de estupro cometidos contra Seo e Lee. A pena foi cinco anos menor do que a exigida pelos promotores, que pediram 20 anos. O réu nega todas as acusações e já recorreu da decisão.
Quanto à terceira vítima, o juiz reconheceu responsabilidade por violência social, mas retirou a acusação de estupro por falta de provas de força ou ameaça que impossibilitassem a resistência da vítima.
Organizações de defesa dos direitos das pessoas com deficiência formaram um comitê de resposta conjunto e criticaram a decisão judicial, argumentando que a redução da pena e a retirada de acusações refletem um tratamento desigual para vítimas vulneráveis.
O comitê também pediu o fechamento imediato de Saekdongwon, apontando que a instituição falhou em garantir um ambiente seguro e que a continuidade de suas atividades poderia colocar outras pessoas em risco.
Autoridades do Ministério da Saúde e Bem‑Estar Social anunciaram que vão revisar os protocolos de monitoramento de residências assistidas, incluindo a implementação de auditorias independentes e treinamento de funcionários para identificar e prevenir abusos.
Especialistas em direitos humanos ressaltam que o caso evidencia a necessidade de políticas mais robustas de proteção, especialmente para indivíduos que dependem de comunicação limitada e que, muitas vezes, não conseguem relatar agressões de forma convencional.
Enquanto o processo de apelação segue, a sociedade sul‑coreana acompanha de perto o desenrolar dos fatos, exigindo maior transparência e responsabilidade das instituições públicas que cuidam de populações vulneráveis.
O debate também se estendeu ao cenário internacional, com organizações de direitos humanos solicitando que outros países revisem suas próprias estruturas de assistência a pessoas com deficiência, a fim de evitar casos semelhantes.
Em entrevista à imprensa, a advogada Ko enfatizou que o caso deve servir de alerta para que o Estado invista em mecanismos de denúncia acessíveis, como linhas diretas com intérpretes de linguagem de sinais e acompanhamento psicossocial para as vítimas.
Para as sobreviventes, a condenação representa apenas o início de um longo caminho de recuperação. Elas continuam a receber apoio psicológico e a participar de grupos de apoio que ajudam a reconstruir a confiança em instituições públicas.
O caso de Saekdongwon permanece como um marco na luta pelos direitos das pessoas com deficiência na Coreia do Sul, reforçando a importância de políticas inclusivas e de fiscalização rigorosa.








