Em novembro de 2025, pouco antes da decisão do Banco Central de liquidar extrajudicialmente o Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro procurou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo para tentar influenciar a situação. O encontro ocorreu em São Paulo, na residência particular de Belluzzo, e foi registrado em mensagens trocadas com o advogado Walfrido Warde. A tentativa de lobby gerou controvérsia e levantou dúvidas sobre a conduta de ambos os profissionais.
Contexto da crise do Banco Master
O Banco Master enfrentava sérias dificuldades financeiras desde o início de 2024, com aumento de inadimplência e perda de liquidez. As autoridades reguladoras monitoravam de perto a instituição, mas a situação se agravou rapidamente, culminando na intervenção do Banco Central em novembro de 2025. A medida visava proteger os depositantes e evitar um colapso sistêmico no sistema bancário brasileiro.
Analistas apontam que a falta de capitalização e a exposição excessiva a setores de alto risco foram os principais fatores da crise. Além disso, a gestão do banco foi acusada de práticas pouco transparentes, o que alimentou a pressão dos reguladores. Nesse cenário, os acionistas buscaram estratégias para reverter o destino da instituição.
O encontro entre Vorcaro e Belluzzo
Segundo depoimento concedido à revista VEJA, Belluzzo recebeu Vorcaro em sua casa poucos dias antes da intervenção. O banqueiro chegou com um “nheco‑nheco”, termo usado para designar uma proposta informal, e solicitou apoio para se aproximar do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Belluzzo, que já escreveu três livros com Galípolo, recusou imediatamente a ideia de intermediar o contato.
“Eu não faço lobby”, afirmou Belluzzo, destacando que a relação acadêmica com Galípolo não poderia ser usada para fins comerciais. O economista explicou que sua colaboração com o presidente do Banco Central se restringe a projetos de pesquisa e debates institucionais. Mesmo assim, Vorcaro insistiu, sugerindo que Belluzzo poderia atuar como “tutor” de Galípolo.
As mensagens trocadas entre Vorcaro e o advogado Walfrido Warde revelam que Belluzzo foi mencionado como figura estratégica nas negociações. Warde, de forma irônica, descreveu o economista como “tutor de Gabriel Galípolo”, insinuando que ele poderia influenciar a decisão do regulador. Essa referência alimentou especulações sobre um possível conluio.
Acusações de lobby e pagamentos
Durante a investigação, foi encontrado no celular de Vorcaro um comprovante de depósito no valor de R$ 250 mil, supostamente destinado a Belluzzo. O documento sugeria que o pagamento teria sido feito como recompensa pela suposta colaboração no lobby. Contudo, Belluzzo nega que o dinheiro tenha sido usado para defender os interesses do Banco Master.
Em entrevista, o economista admitiu ter recebido recursos de Walfrido Warde, mas explicou que o valor foi destinado a apoiar debates no Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), onde ele exerce a função de economista‑chefe. “O dinheiro foi para a realização de eventos e pesquisas no IREE, nada relacionado a favorecimento de bancos”, declarou.
- Depósito de R$ 250 mil encontrado no celular de Vorcaro;
- Belluzzo confirma recebimento, mas nega vínculo com o Master;
- Recursos destinados ao IREE, instituição acadêmica sem fins lucrativos;
- Autoridades ainda investigam possíveis infrações de lobby.
O advogado Warde, por sua vez, chegou a reclamar a Vorcaro sobre atrasos nos pagamentos, indicando que o relacionamento financeiro entre as partes era complexo. Em mensagens, Warde escreveu: “Adiantei Belluzzo e Reinaldo, me ajuda por favor”. Essa troca reforça a ideia de que havia um acordo financeiro em curso, embora sua finalidade continue em debate.
Repercussões e posicionamento de Belluzzo
Após a divulgação das conversas, Belluzzo ingressou com uma ação popular na justiça, alegando que a iniciativa visava proteger o interesse público e garantir transparência nas decisões do Banco Central. A ação foi vista como tentativa de limpar seu nome e afastar suspeitas de envolvimento em lobby. O professor ressaltou que sua participação foi limitada a discussões acadêmicas e não a intervenções políticas.
Especialistas em direito regulatório apontam que a conduta de Belluzzo, ainda que não configurada como crime, pode gerar dúvidas sobre a ética nas relações entre academia e poder público. A proximidade entre economistas e autoridades reguladoras é comum, mas exige clareza para evitar conflitos de interesse. A situação de Belluzzo pode servir de alerta para outras instituições.
O Banco Central, por sua vez, manteve que a decisão de liquidação do Banco Master foi baseada em critérios técnicos e não foi influenciada por terceiros. Em comunicado oficial, a autarquia reforçou seu compromisso com a estabilidade do sistema financeiro e a imparcialidade nas decisões regulatórias. Não há indícios de que o presidente Galípolo tenha sido pressionado por lobby externo.
Enquanto isso, Daniel Vorcaro continua enfrentando processos judiciais relacionados à gestão do Banco Master. A tentativa de salvar a instituição por meio de contatos informais não impediu a intervenção do Banco Central, que prosseguiu com a liquidação extrajudicial. O caso permanece aberto para investigação detalhada.
O episódio ilustra como a crise de um banco pode gerar estratégias de última hora, envolvendo figuras influentes do meio acadêmico e jurídico. A transparência nas negociações e a separação clara entre pesquisa e atuação política são fundamentais para preservar a credibilidade das instituições. O debate sobre lobby e ética continuará nos próximos meses, à medida que novas informações surgirem.








