Em 2025, a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou o corte de mais de 10 mil postos de trabalho, uma medida que reflete a profunda crise financeira que a instituição enfrenta e a pressão de contribuições reduzidas pelos Estados Unidos. O recorte afeta agências humanitárias essenciais e pode deixar milhares de refugiados, inclusive no Brasil, sem a assistência que depende do apoio internacional.
Crise financeira da ONU e seus impactos globais
A ONU registra, neste ano, a maior diminuição de recursos desde a década de 2010, com o orçamento total caindo para US$ 64,3 bilhões, equivalente a R$ 322 bilhões, uma redução de 2% em relação a 2024. Dois terços desse montante são destinados à assistência humanitária e ao desenvolvimento, o que demonstra a vulnerabilidade de programas que salvam vidas.
O secretário‑geral António Guterres alertou que a situação financeira da organização está “a mais frágil em décadas”, destacando que a queda de receita afeta todas as agências, desde o ACNUR até a UNICEF. A dependência de contribuições voluntárias dos Estados Unidos – que historicamente respondem por cerca de 45% do orçamento humanitário – tornou‑se um ponto crítico, pois o país reduziu drasticamente seus pagamentos.
Cortes de pessoal e consequências para as agências
Os recortes de pessoal atingiram 21 das 41 agências e organismos da ONU, entre eles o ACNUR, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Abaixo, os principais efeitos observados:
- Redução de até um terço da força de trabalho em algumas agências.
- Fechamento de escritórios em mais de 140 localidades.
- Encerramento de operações em 15 países, afetando diretamente populações vulneráveis.
- Suspensão de programas de apoio a refugiados, incluindo cestas básicas, assistência médica e bolsas de estudo.
O ACNUR, responsável por cerca de 130 milhões de pessoas em situação de deslocamento, solicitou US$ 10,6 bilhões para manter suas operações, mas arrecadou menos de 40% desse valor. Em 2026, até julho, a agência recebeu apenas US$ 2,7 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários, o que evidencia a deterioração contínua da situação financeira.
Refugiados no Brasil: o caso de Delmany Rodrigues e o futuro incerto
Delmany Rodrigues chegou ao Rio de Janeiro em 1994, fugindo da guerra civil em Angola com sua mãe, Dona Amélia, e seu irmão. A família contou com o apoio do ACNUR e da Cáritas, recebendo cestas básicas, material escolar, auxílio no aluguel e acesso ao SUS para medicamentos.
Graças a programas de inclusão, Delmany conseguiu bolsas de estudo que o levaram a graduar‑se em Educação Física e, posteriormente, em Fisioterapia, reforçando o papel das políticas públicas de apoio a refugiados. Contudo, o atual cenário de cortes ameaça a continuidade desses serviços.
Se a ONU não conseguir reverter a crise, milhares de refugiados no Brasil podem ficar sem assistência básica, como acesso a saúde, educação e inserção no mercado de trabalho. A falta de recursos pode também limitar a capacidade de organizações locais de oferecer suporte direto, aumentando a vulnerabilidade de famílias que já enfrentam desafios de adaptação.
Especialistas apontam que a solução passa por diversificar as fontes de financiamento, reduzir a dependência de poucos doadores e fortalecer parcerias com governos locais e sociedade civil. Enquanto isso, a comunidade internacional observa atentamente o desenrolar da crise, que pode redefinir o futuro da ajuda humanitária global.








