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Tradição indígena, crise ambiental e economia do pescado no Espírito Santo

Em Aracruz, no Espírito Santo, a comunidade indígena da Aldeia Piraquê-Açu realiza uma cerimônia de oração ao Rio Piraquê-Açu, pedindo proteção para as águas, o mar e os peixes que sustentam sua subsistência. A prática, que acontece diariamente, reflete a profunda ligação entre cultura, meio ambiente e economia local.

A tradição indígena e a oração ao rio

O cacique Kara’í Perú, acompanhado de sua mãe, a pajé Keretxu Emdey, de 86 anos, abre os braços e entoa cantos em guarani às margens do rio. O ritual invoca a saúde dos rios, do mar e dos peixes, ao mesmo tempo em que clama por bem‑estar para toda a comunidade que depende da água para viver.

Para os Piraquê-Açu, o rio não é apenas um curso d’água; ele é o primeiro espaço de aprendizado das crianças, o local onde os meninos aprendem a pescar e a fonte histórica de alimento. Durante décadas, a pesca de tainha, robalo, pescadinha, vermelho e carapeba era rotina, garantindo proteína e renda para as famílias.

O declínio do Rio Piraquê-Açu e a busca por alternativas

Nos últimos dez anos, o cacique relata que não pesca mais no rio, declarando que “o rio tá morto”. Ele associa essa degradação ao desastre de Mariana, em 2015, que liberou toneladas de rejeitos de minério nas bacias hidrográficas que alimentam o Piraquê-Açu.

Embora ainda não existam estudos científicos conclusivos que confirmem a relação direta, a percepção local aponta para a contaminação dos leitos e a deterioração da qualidade da água. Como medida de segurança, a aldeia passou a criar peixes em tanques e a comprar pescado de fontes externas, longe da margem do rio.

A criação em tanques surge como resposta imediata à crise, mas não elimina a preocupação com o lençol freático. Enquanto a água do rio permanece imprópria para consumo, a comunidade depende de pescados trazidos por comerciantes de outras regiões, o que eleva o custo de vida e reduz a autonomia alimentar.

A cadeia produtiva do pescado e os desafios do setor

O pescado, além de ser alimento, movimenta uma cadeia econômica complexa no Espírito Santo. Essa rede inclui pescadores artesanais, armadores, peixarias, distribuidores, fábricas de gelo, restaurantes, indústrias de beneficiamento, cooperativas e consumidores finais.

Rafael Viola, do Sindicato dos Pescadores do Estado do Espírito Santo (Sindipesca‑ES), destaca que a fragmentação dos atores dificulta a organização e a defesa de interesses comuns. Por isso, o sindicato busca conectar esses elos, promovendo a cooperação entre pequenos e médios empreendimentos.

  • Pescadores artesanais que utilizam redes de arrasto e linhas de mão.
  • Armadores que operam embarcações de pequeno porte nas costas capixabas.
  • Peixarias e distribuidores que abastecem mercados locais e regionais.
  • Fábricas de gelo e de conservação que garantem a qualidade do produto.
  • Restaurantes e redes de alimentação que valorizam o peixe fresco.

Um dos projetos impulsionados pelo Sindipesca‑ES é o “Pesca Mais ES”, que percorre comunidades pesqueiras, coleta demandas e co‑cria soluções com órgãos públicos e entidades privadas. O objetivo é fortalecer a sustentabilidade da pesca, melhorar a infraestrutura e garantir preços justos para produtores e consumidores.

Iniciativas para preservar a cultura e revitalizar a pesca

Além das ações sindicais, organizações não governamentais e universidades têm desenvolvido pesquisas sobre a qualidade da água e a biodiversidade do Rio Piraquê‑Açu. Estudos de monitoramento ambiental buscam identificar contaminantes específicos e propor medidas de remediação.

Programas de educação ambiental nas escolas da aldeia incentivam os jovens a conhecerem a história da pesca tradicional e a importância da conservação dos recursos hídricos. Oficinas de manejo de tanques e de cultivo de espécies nativas também são oferecidas, ampliando as opções de produção local.

Essas iniciativas, aliadas à pressão por responsabilização das empresas mineradoras, podem abrir caminho para a recuperação gradual do rio. Enquanto isso, a oração diária continua sendo um símbolo de resistência cultural e esperança de que as águas voltem a sustentar gerações futuras.

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