Uma equipe multidisciplinar iniciou, nesta terça‑feira (6), um estudo de R$ 5,6 milhões para entender o avanço do mar que já consumiu mais de 500 residências em Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense. O projeto, chamado EVTEA, tem duração prevista de 18 meses e envolve a coleta de dados, entrevistas com moradores e a proposição de soluções de mitigação.
Contexto e histórico da erosão em Atafona e Açu
Desde a década de 1950, a costa de Atafona e Açu sofre com a erosão provocada por processos naturais e alterações climáticas. Dados da Universidade Federal Fluminense (UFF) revelam que, ao longo de setenta anos, o mar avançou até sete quarteirões, engolindo casas, comércios e até um prédio público.
Os registros históricos apontam que, entre 2010 e 2019, a perda de áreas habitáveis chegou a 2,3 hectares, o que equivale a aproximadamente 500 domicílios. Esse cenário gerou deslocamento de famílias, redução da atividade pesqueira e um clima de insegurança permanente entre os moradores.
Além das perdas materiais, a erosão tem causado impactos ambientais, como a degradação de manguezais e a alteração dos habitats de espécies marinhas. A combinação desses fatores tornou a região um caso emblemático para estudos de adaptação costeira no Brasil.
Detalhes do estudo EVTEA e sua estrutura
O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) foi contratado pela prefeitura de São João da Barra após licitação pública e está sendo conduzido pela SEACaruso, filial do Grupo Caruso. A equipe reúne 29 especialistas de áreas distintas, incluindo geociências, engenharia civil, oceanografia, sociologia e economia.
Na fase de campo, iniciada em 6 de junho, os técnicos realizam perfis de praia, medições de marés, correntes e ondas, além de análises de sedimentos. A coleta de dados depende de condições marítimas específicas, como a quadratura da lua, que define o momento ideal para os levantamentos.
Para garantir a participação da comunidade, foram instalados módulos de atendimento em Atafona e Açu. A partir de 13 de junho, esses espaços funcionam como pontos de contato, onde moradores podem esclarecer dúvidas e contribuir com relatos sobre as mudanças na costa.
Um dos objetivos centrais do EVTEA é transformar os dados coletados em modelos matemáticos capazes de simular diferentes cenários de erosão. Esses modelos servirão de base para avaliar a viabilidade de intervenções como:
- Reposição de areia (re‑alimentação de praias);
- Recuperação de dunas e vegetação costeira;
- Construção de estruturas rígidas, como quebra‑mares e paredões;
- Implementação de soluções baseadas na natureza, como recifes artificiais.
Além das soluções técnicas, o estudo inclui uma análise econômica que estima custos de implementação, manutenção e os benefícios sociais associados à proteção das áreas habitadas.
Impactos na comunidade e ações de engajamento
Os moradores são parte ativa do processo. Até o momento, 211 residentes já foram entrevistados, registrando percepções sobre a perda de terra, alterações nas atividades de pesca, turismo e lazer, e expectativas quanto às possíveis intervenções.
Lúcia Helena, marisqueira de 58 anos que vive em Atafona há mais de quatro décadas, compartilhou que perdeu sua casa e teve sua renda interrompida. “O mar chegou tão perto que hoje não consigo mais trabalhar na maricultura. Preciso de uma solução que devolva a segurança à minha família”, relatou.
Os módulos de atendimento também oferecem oficinas de capacitação, onde especialistas explicam conceitos de erosão, uso de tecnologias de monitoramento e a importância da participação cidadã nos processos de decisão.
Essa aproximação busca evitar a sensação de imposição de medidas externas e, ao contrário, criar um plano de ação co‑criado, alinhado às necessidades reais da população.
Perspectivas, soluções e próximos passos
Ao final dos 18 meses, o EVTEA deverá entregar um relatório consolidado que integrará aspectos técnicos, ambientais, econômicos e sociais. Esse documento será a base para a prefeitura solicitar recursos estaduais e federais destinados a obras de contenção e recuperação costeira.
Entre as alternativas que poderão ser priorizadas, destaca‑se a reposição de areia, considerada a medida de curto prazo mais eficaz para restaurar a faixa de praia e proteger as casas fronteiriças. Contudo, os especialistas alertam que essa solução deve ser acompanhada de estratégias de longo prazo, como a recuperação de vegetação nativa e a implantação de estruturas de defesa natural.
Outra proposta em discussão é a criação de um corredor ecológico que una manguezais, dunas e áreas de recifes, proporcionando um amortecedor natural contra a energia das ondas. Essa abordagem, alinhada às políticas de adaptação climática, pode reduzir custos de manutenção e gerar benefícios ambientais adicionais.
O estudo ainda prevê a elaboração de um plano de monitoramento contínuo, utilizando sensores de nível de água, drones e plataformas de observação marítima. Esses instrumentos permitirão acompanhar a eficácia das intervenções e ajustar as estratégias conforme necessário.
Em síntese, o projeto EVTEA representa um esforço conjunto entre governo, setor privado e comunidade para enfrentar um dos maiores desafios costeiros do Brasil. A combinação de ciência avançada, participação cidadã e foco em soluções sustentáveis pode servir de modelo para outras regiões vulneráveis ao avanço do mar.








