Em 2020, durante a pandemia de COVID‑19, pesquisadores observaram que quase todas as pessoas que caminhavam em um espaço fechado formavam círculos que giravam no sentido anti‑horário, sem perceber o padrão. A descoberta ocorreu em um laboratório universitário de São Paulo, onde grupos eram instruídos a manter distância física. Esse comportamento inesperado desencadeou uma investigação que durou cinco anos, envolvendo experimentos dentro e fora de ambientes controlados.
Descoberta inesperada
Os cientistas estavam inicialmente focados em entender a dinâmica de distanciamento social. Enquanto revisavam as gravações, perceberam que a maioria dos participantes se deslocava em trajetórias circulares que giravam para a esquerda. O fenômeno era sutil, mas recorrente, e não havia relatos de os participantes notarem a própria rotação.
Para confirmar a observação, a equipe analisou dezenas de vídeos, contabilizando a direção do giro em cada sessão. O padrão se manteve consistente: mais de 90% dos grupos giravam no sentido anti‑horário. Essa regularidade sugeriu que algo mais profundo estava em jogo, além das instruções de distanciamento.
Os pesquisadores decidiram então tratar o efeito como um caso clássico de comportamento emergente, onde padrões coletivos surgem a partir de interações simples entre indivíduos e o ambiente. A hipótese inicial apontava para a influência das paredes da sala.
Hipóteses testadas
A primeira hipótese considerava que a lateralidade humana poderia explicar o giro. Estudos de neurociência indicam que pessoas destras tendem a virar levemente para a esquerda ao colidir com obstáculos, enquanto canhotas apresentam o efeito oposto. Como a maioria dos voluntários era destra, os pesquisadores supuseram que a soma dessas preferências individuais poderia gerar o movimento coletivo.
Para testar essa ideia, foi criado um experimento preliminar: cada participante caminhava em linha reta até uma parede e, ao tocá‑la, registrava‑se para que lado ele virava. Os resultados mostraram que, embora existisse uma leve preferência individual, ela não era suficiente para inverter a rotação da multidão.
- Grupo predominantemente destro: giro anti‑horário mantido.
- Grupo predominantemente canhoto: ainda girava anti‑horário.
- Voluntários instruídos a virar à direita ao colidir: padrão não mudou.
Com a hipótese das paredes descartada, a equipe levou o experimento para um pátio aberto de 3.000 metros quadrados, sem qualquer barreira física. Mais de cem adolescentes foram convidados a caminhar livremente, sem direção específica.
Surpreendentemente, o giro para a esquerda não só persistiu como se intensificou. A ausência de paredes eliminou a possibilidade de que elas fossem a causa principal, direcionando a investigação para as interações entre pedestres.
A segunda hipótese focava nas regras de desvio adotadas quando duas pessoas se encontram de frente. Em países que dirigem pela direita, como o Brasil, os pedestres tendem a desviar para a direita, deixando a esquerda livre para o outro. Esse comportamento cria faixas de fluxo que podem gerar um movimento circular coletivo.
Para validar essa teoria, os pesquisadores analisaram o padrão de desvio em diferentes contextos culturais. Se a preferência de desvio fosse a chave, então em países que dirigem pela esquerda, como o Japão, a rotação deveria ser no sentido horário.
Um colaborador japonês reproduziu o experimento em Tóquio, reunindo estudantes em um ginásio amplo. Os resultados confirmaram a hipótese: o grupo girou predominantemente no sentido horário, invertendo o padrão observado no Brasil.
Implicações e próximos passos
Esses achados revelam que a direção do giro coletivo está intimamente ligada à convenção de trânsito local e ao hábito de desvio em encontros frontais. O comportamento emergente não depende de paredes ou de preferências individuais, mas da cultura de deslocamento que cada sociedade desenvolve.
Além de enriquecer a compreensão da dinâmica de multidões, a pesquisa tem aplicações práticas. Planejadores urbanos podem usar esses insights para projetar rotas de evacuação mais eficientes, considerando o sentido natural de rotação das pessoas em ambientes fechados.
Outra aplicação potencial está na área de robótica colaborativa. Ao programar robôs para interagir com humanos em espaços compartilhados, entender a tendência de rotação pode evitar colisões e melhorar a fluidez do movimento conjunto.
Os autores também sugerem que futuros estudos explorem variações de idade, tamanho de grupo e contexto emocional. Por exemplo, grupos em situações de pânico podem apresentar padrões diferentes, ou a presença de música pode influenciar a direção do giro.
Em resumo, a descoberta de que multidões giram naturalmente para a esquerda – ou para a direita, dependendo da cultura de trânsito – demonstra como regras simples de interação podem gerar padrões complexos e previsíveis. O trabalho abre caminho para uma nova geração de pesquisas sobre comportamento coletivo, unindo física, neurociência e ciências sociais.








