O debate sobre a inclusão das canetas emagrecedoras na rede pública de saúde do Brasil avançou durante a reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), realizada em Milão. O Ministério da Saúde solicitou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) que reavalie o pedido, que ainda não tem prazo definido para decisão. A discussão ganhou destaque quando o CEO da Novo Nordisk, Mike Doustdar, concedeu entrevista à imprensa brasileira, reforçando a necessidade de ampliar o acesso a esses medicamentos.
Contexto da demanda por canetas emagrecedoras
A obesidade tem se consolidado como um dos maiores desafios de saúde pública no país, com milhões de brasileiros classificados como obesos. O aumento de casos tem pressionado o Sistema Único de Saúde (SUS) a buscar soluções mais eficazes, entre elas os análogos de GLP‑1, como o Ozempic e o Wegovy, que atuam na regulação do apetite e no controle glicêmico. Apesar de comprovada eficácia, a alta carga orçamentária tem sido um obstáculo para sua adoção em larga escala.
Em 2023, a Conitec avaliou o pedido de incorporação e o rejeitou, apontando um impacto estimado de mais de R$ 8 bilhões no orçamento da saúde. A decisão gerou críticas de especialistas, que argumentam que o custo imediato pode ser compensado pela redução de despesas com comorbidades associadas à obesidade, como hipertensão, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
Posição da Novo Nordisk e negociações com o SUS
Mike Doustdar ressaltou que a empresa tem mantido um diálogo aberto e constante com as autoridades brasileiras. Segundo ele, a incorporação das canetas emagrecedoras não representa apenas um gasto, mas um investimento estratégico em saúde preventiva. “Sem acesso adequado, esses medicamentos permanecem nas prateleiras dos nossos laboratórios, enquanto pacientes continuam sem tratamento eficaz”, declarou o CEO.
Em resposta ao parecer desfavorável da Conitec, a Novo Nordisk apresentou um novo pedido em junho, oferecendo um desconto de 59% sobre o preço de lista dos fármacos. O objetivo da empresa é tornar o tratamento financeiramente viável para o SUS, ao mesmo tempo em que amplia a cobertura terapêutica para a população que mais precisa.
Em entrevista conjunta, Emil Larsen, vice‑presidente executivo de operações internacionais da companhia, comparou a estratégia de negociação ao modelo adotado para a insulina, que já está disponível no Programa Farmácia Popular. “Vemos um futuro em que os análogos de GLP‑1 sejam tratados da mesma forma que a insulina foi ao longo dos anos”, afirmou.
Impacto econômico e critérios de elegibilidade
Para equilibrar o custo‑benefício, a Novo Nordisk propôs delimitar o público‑alvo do tratamento. Os pacientes elegíveis seriam aqueles com mais de 45 anos, diagnosticados com obesidade, sem diabetes e que já tenham sofrido infarto. Essa segmentação visa concentrar o uso nos casos de maior risco, potencializando os ganhos clínicos e econômicos.
- Idade acima de 45 anos;
- Obesidade classificada como grau II ou III (IMC ≥ 35);
- Ausência de diagnóstico de diabetes tipo 2;
- Histórico de infarto do miocárdio;
- Falha em intervenções não farmacológicas (dietas, exercícios).
Ao aplicar esses critérios, a expectativa é reduzir a demanda inicial, permitindo que o SUS absorva o custo de forma gradual. Analistas apontam que a prevenção de eventos cardiovasculares pode gerar economias significativas a médio e longo prazo, superando o investimento inicial.
Perspectivas futuras e formatos orais
Além das formulações injetáveis, a Novo Nordisk está avançando no desenvolvimento da versão oral da semaglutida, conhecida como Wegovy Pill. O Brasil já figura na lista de países que receberão o comprimido, com o pedido de aprovação enviado à Anvisa em janeiro deste ano. O medicamento já está disponível em mercados como Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Alemanha, e o México deve ser o próximo a iniciar seu uso.
Larsen destacou o potencial do formato oral para ampliar ainda mais a adesão ao tratamento. “Se metade dos pacientes preferir a via oral e a eficácia se equiparar à das injeções, o mercado crescerá naturalmente”, afirmou. Essa mudança poderia simplificar a logística de distribuição e reduzir custos associados à aplicação de injeções.
O CEO da Novo Nordisk também enfatizou que a obesidade não é uma condição única, mas um conjunto de síndromes com diferentes etiologias. “Precisamos de uma variedade de tratamentos que atendam às especificidades de cada paciente”, explicou Doustdar, indicando que a empresa investe em pesquisas para desenvolver terapias mais personalizadas.
Em síntese, a negociação entre a Novo Nordisk e o SUS avança em meio a desafios financeiros e regulatórios, mas com a promessa de oferecer uma solução inovadora para um problema de saúde pública de grande escala. O próximo passo dependerá da aprovação da Conitec, da efetivação do desconto proposto e da integração dos novos protocolos clínicos nas diretrizes do SUS.








